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Entre os milhentos dogues alemães que
já tive, o mais indisciplinado e temperamental atende pelo nobre
epíteto
Tiny II Blue Chaski Del Inca, magnífico exemplar
de cor azul.
Corpo e meio na janela do escritório, ladra
decibéis superiores ao das turbinas dos mais ruidosos jatos,
assusta clientes, interrompe minha concentração – tudo quando
quer atenção e carinho. Em contrapartida, quando o chamo, só vem
quando quer – e quase sempre não o almeja.
Como se não bastasse, causou-me incontáveis
constrangimentos doméstico-trabalhistas: arrasta roupas lavadas
do varal, rasga jornais e revistas ainda virgens de leitura
(especial preferência por Veja e Jornal da
Comunidade...), rosna para os serviçais. Com o diagnóstico
de cão-problema, remeti-o a exímio adestrador. Voltou pior!
Sorria ironicamente e me olhava de esguelha, como a dizer “sou o
dono da casa, faço o que quero e quem manda em mim sou eu”.
Humilhado e já conformado com a novel
condição de comodatário, me perguntava como eu me adaptaria
àquela incômoda situação, quando, um dia, rosnou para mim!
Foi
a gota d’água que faltava. Indignado com tão superlativa
desconsideração, pus em brios minhas assaz conhecidas coragem,
energia e criatividade. Inspirei-me nas pesquisas de Ivan Petrovich Pavlov sobre reflexos condicionados em cães, na
linguagem hipnótica de Milton Erickson, na comunicação eficaz de
Bandler e Grinder, nas observações de Gregory Bateson sobre a
aprendizagem dos golfinhos – enfim, na abordagem MenteCorpo.
Duas semanas depois, milagre! Era outro ser humano (apud
Magri): solícito, disciplinado, elegante, capaz de evocar inveja
ao Chefe do Cerimonial do Itamarati.
Argüirá o erudito e curioso leitor como fi-lo
para atingir tão ambicioso escopo. Vamos por partes, como diria
Jack.
Observara que a alimária, em seus momentos
lúdicos, de ócio ou de tédio, demonstrava atração
compulsivo-obsessiva por pequenos gravetos: selecionava um
deles, abocanhava-o, lançava-o ao alto, voltava a abocanhá-lo
com suas formidandas fauces e, assim, desfilava com potestade,
donaire e orgulho. Recusava-se, porém, a comigo compartilhar do
folguedo. Usufruía-o de forma egocêntrica.
Sabedor que o rapport - a empatia - é o
primeiro e crucial passo para a comunicação harmônica,
presenteei-o com uma bola de tênis. Bingo! Toda a vez que a
lançava repetia já descrito comportamento, inclusive não m’a
devolvendo. Dias depois, num aparente acaso, pegou a bolinha,
subiu à janela sem prévio convite e, vaidosamente, mostrou-m’a
sem dela abrir mão (ou boca). Imediatamente, dei-lhe o
feedback: levantei-me num átimo, comecei a acariciá-lo,
enquanto dizia-lhe “muito bem, Tiny, inteligente,
bolinha, bonito” e coisas do mesmo jaez – em tom e timbre
adequados.
Daí em diante o progresso foi exponencial:
latia, subia na janela e eu retrucava: bolinha, vá pegar a
bolinha e não me levantava. Discípulo aplicado, logo aprendeu as
regras do jogo: sem bolinha nada acontecia; atendendo o comando,
carícias e palavras de estímulo. Mais: antecipou-se. Quando se
se sente carente, traz a pelota e obtém a recompensa da
atenção. Aha! Conheceu, papudo?
Demonstrada, pois, cartesiano leitor, minha
tese de insigne comunicador, o canídeo foi condicionado sem
traumas e num curto período.
PS-1: Tiny continua a destruir os
periódicos algures aludidos. Mas poupa Carta Capital, Caros
Amigos, Folha de São Paulo e, às vezes, o Correio Braziliense,
numa notável demonstração de discernimento político.
PS-2: Ocorreu pequeno desvio de
percurso. Agora, toda vez que Tiny aparece na janela com a
bolinha na boca , eu interrompo o que estiver fazendo
para ir ao seu encontro.
Tenho a impressão de que ele
me condicionou...
Publicado:
22.11.2003
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