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O saudoso Herr Argus Chaski Del Inca foi um dos mais
imensos dogues alemães que já vi e tive. Baio, máscara negra,
carinhoso e dócil com os de casa, indiferença majestática com
estranhos por nós acompanhados, temperamento desabrido com
qualquer coisa que se movimentasse para invadir o seu espaço.
Uma palavra o definia:
imponente.
Num sábado saímos a passeio, dispensando o cinesíforo. Como
soía acontecer portava enforcador, guia curta e mordaça, mais
para tranqüilizar os transeuntes do que por necessário, posto
que dotado de disciplina verdadeiramente germânica.
No interstício entre o final da manhã e o início da tarde,
a visão de um modesto bar com cadeiras na calçada, incitou-me a
sede –, eis que estávamos no verão – pelo que fomos a um chope.
Não quis deixá-lo no carro, posto que o calor era senegalesco.
Ao ver-nos marchando decididamente em direção ao nosso
destino, a patuléia sentada nas mesas mais próximas da rua
debandou assustada e concentrou-se no fundo da casa de pasto, o
que para nós resultou mais confortável, não obstante houvera
localizado mesa de dois lugares bem afastada da choldra.
Sentei-me na cadeira, e ele imperial, olímpico, à minha
frente, ignorando o frisson produzido, os olhares de
soslaio e os comentários à meia voz da escumalha. Penso já ter
dito estar a bodega mais para ociosa, havendo equilíbrio entre
servidores e usuários. Por isto, causou-me espécie a espera, vez
que os garçons já atendiam clientes que depois de nós chegaram.
Assim, cumprido intervalo elegante, chamei um deles, já que a
minha sede se impacientava. Aproximou-se, constrangido, um
escanção, que após o meu pedido, retrucou-me não poder atendê-lo
já que a norma da casa proibia a presença de animais. Como não
tivesse autonomia neuronal para entender as minhas ponderações
de que em Paris não era assim e que Argus apenas me faria
companhia, e que eu é que ansiava pelo chope, dirigi-me
ao proprietário, dublê de caixa, tendo antes alertado ao cão com
um desnecessário comando: sit e quedat. Creio ter
vislumbrado um irônico sorriso da alimária, antevendo o que
viria.
Recebeu-me o dono da baiúca, antes que eu pudesse
parlamentar, com invulgar grosseria: a casa não atende quando há
cachorros à mesa e não permito exceções! Pronto!
Mesmo sendo
eu de fino trato, por natureza gentil e de temperamento cordato
e conciliador, não agüentei tão superlativo vitupério.
Escandindo as sílabas, devolvi-lhe a insolência: o prezado
acaba de cometer alguns equívocos. Primeiro, cachorro é filhote
de leão – ele é um cão - e que cão! Segundo, ele só está
aqui por consideração à minha pessoa, pois como elitista que é,
detesta freqüentar ambientes mefíticos, como a sua bodega.
Terceiro, o senhor sabe os nomes dos seus pais (sim), dos seus
avós (também, embora hesitasse quanto ao avô paterno), dos seus
bisavós (o ruído das engrenagens cerebrais projetava-se em sua
carantonha, quando balbuciou humilhado não me lembro)?
Pois então, arrematei num golpe de misericórdia: Argus conhece
até a sétima geração dele! (A esta altura, já inserido no clima,
Argus começou a rosnar – mais por senso de humor do que por
qualquer resquício de revolta). “E sabe o que mais”, aduzi, para
deleite da rafaméia, agora solidária, “introduza o seu chope no
seu esfíncter anal!!!”
E, aplaudidos
pela turba, saímos os dois às gargalhadas, comentando os
acontecidos, a caminho do Lago Sul, onde tomamos nossos chopes
num restaurante elegante e confortável.
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