CRÔNICAS
 

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                        NELSON MARINS

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         HERR ARGUS NO BOTEQUIM  

   

 

 

      

 

    O saudoso Herr Argus Chaski Del Inca foi um dos mais imensos dogues alemães que já vi e tive. Baio, máscara negra, carinhoso e dócil com os de casa, indiferença majestática com estranhos por nós acompanhados, temperamento desabrido com qualquer coisa que se movimentasse para invadir o seu espaço. Uma palavra o definia:

imponente.

 

     Num sábado saímos a passeio, dispensando o cinesíforo. Como soía acontecer portava enforcador, guia curta e mordaça, mais para tranqüilizar os transeuntes do que por necessário, posto que dotado de disciplina verdadeiramente germânica.

 

     No interstício entre o final da manhã e o início da tarde, a visão de um modesto bar com cadeiras na calçada, incitou-me a sede –, eis que estávamos no verão – pelo que fomos a um chope. Não quis deixá-lo no carro, posto que o calor era senegalesco.

 

     Ao ver-nos marchando decididamente em direção ao nosso destino, a patuléia sentada nas mesas mais próximas da rua debandou assustada e concentrou-se no fundo da casa de pasto, o que para nós resultou mais confortável, não obstante houvera localizado mesa de dois lugares bem afastada da choldra.

 

     Sentei-me na cadeira, e ele imperial, olímpico, à minha frente, ignorando o frisson produzido, os olhares de soslaio e os comentários à meia voz da escumalha. Penso já ter dito estar a bodega mais para ociosa, havendo equilíbrio entre servidores e usuários. Por isto, causou-me espécie a espera, vez que os garçons já atendiam clientes que depois de nós chegaram. Assim, cumprido intervalo elegante, chamei um deles, já que a minha sede se impacientava. Aproximou-se, constrangido, um escanção, que após o meu pedido, retrucou-me não poder atendê-lo já que a norma da casa proibia a presença de animais. Como não tivesse autonomia neuronal para entender as minhas ponderações de que em Paris não era assim e que Argus apenas me faria companhia, e que eu é que ansiava pelo chope, dirigi-me ao proprietário, dublê de caixa, tendo antes alertado ao cão com um desnecessário comando: sit e quedat. Creio ter vislumbrado um irônico sorriso da alimária, antevendo o que viria.

 

     Recebeu-me o dono da baiúca, antes que eu pudesse parlamentar, com invulgar grosseria: a casa não atende quando há cachorros à mesa e não permito exceções! Pronto!     

 

     Mesmo sendo eu de fino trato, por natureza gentil e de temperamento cordato e conciliador, não agüentei tão superlativo vitupério. Escandindo as sílabas, devolvi-lhe a insolência: o prezado acaba de cometer alguns equívocos. Primeiro, cachorro é filhote de leão – ele é um cão - e que cão! Segundo, ele só está aqui por consideração à minha pessoa, pois como elitista que é, detesta freqüentar ambientes mefíticos, como a sua bodega. Terceiro, o senhor sabe os nomes dos seus pais (sim), dos seus avós (também, embora hesitasse quanto ao avô paterno), dos seus bisavós (o ruído das engrenagens cerebrais projetava-se em sua carantonha, quando balbuciou humilhado não me lembro)? Pois então, arrematei num golpe de misericórdia: Argus conhece até a sétima geração dele! (A esta altura, já inserido no clima, Argus começou a rosnar – mais por senso de humor do que por qualquer resquício de revolta). “E sabe o que mais”, aduzi, para deleite da rafaméia, agora solidária, “introduza o seu chope no seu esfíncter anal!!!”

 

     E, aplaudidos pela turba, saímos os dois às gargalhadas, comentando os acontecidos, a caminho do Lago Sul, onde tomamos nossos chopes num restaurante elegante e confortável.

 

  

    

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