CRÔNICAS
 

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           NELSON MARINS

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    ASSIM É SE LHE PARECE     

   

 

 

Homenagem a Pirandello e a Ionesco

      

 Almoço no domingo num dos melhores restaurantes da cidade. Na mesa ao lado, um quadro instigante. Ele, madurão, cabelos prateados cortados rente, cuidadosamente bronzeado. Ela, por contraste, treze anos presumíveis, tez alva e louçã. Etérea. A blusinha de seda, classicamente colorida por avoenga estamparia, apenas deixava escapar os frágeis pulsos e o pescoço de gazela. Um camafeu, um biscuit, uma princesinha retirada de um livro de contos infantis de outrora, de outros séculos, ali materializada. 

 

 Pouco depois, disse à M.:

“Papá e filhinha almoçando juntos”.

“Não, não são pai e filha”, ela disse.

 

Continuei minhas elucubrações. “Claro que são pai e filha”, eu disse.

“Você está enganado”, ela retruca.

 

“São, não são, está enganado, não estou”, e assim prosseguimos até que uma cena ambígua abala minhas convicções: o biscuit leva, gentilmente à boca do papai, a sua colher, num gesto de delicado afeto.

 

 “Será ele um pedófilo?”, pergunto apreensivo.

“Nada disso, ela não é nenhuma infanta, são apenas um casal”, redargüiu M.

 

Cultivamos um longo silêncio – enquanto nossas mentes inconscientes trabalhavam febrilmente. Súbito, nos olhamos perplexos: ambos tínhamos razão!

 

 Eventos ulteriores confirmaram nossas suspeitas. Viviam nos recônditos de pacata cidade. Ele, modesto comerciante, a mulher, professora primária, e os filhos, cuja biscuit – a caçula –, freqüentava o grupo escolar. A vida seguia pachorrenta, quando então o Maligno apossou-se das suas almas e dos seus corpos: tornaram-se amásios! Escândalo inominável, o incesto incendiou o até então plácido burgo. A família – célula mater da sociedade e dos bons costumes – desintegrou-se. A mãe, duplamente traída, imersa em profunda depressão, suicidou-se, ateando fogo às vestes.  Não conseguiram os traidores resistir à permanência. Acoitaram-se em Brasília.

 

 Na capital federal, um amigo fiel dos velhos tempos, há muito influente em governos pretéritos, para ele conseguiu vultosas consultorias. A ela, não obstante na menoridade, coube dirigir uma importante Comissão em um dos Três Poderes, que por discrição habitual, permito-me calar. E assim, desde que aqui chegaram, e pouco mais de oito anos são passados, depois de se lamberem reciprocamente as chagas – frutos do pecado – vivem bem, reverenciados e requisitados pela nata da sociedade, que ignora os acontecidos. Tiveram até uma filhinha, da qual ela é – ao mesmo tempo – irmã e mãe, e ele, pai e avô.

 

 Não pense, leitor amável, que por aí se extingue tão surreal e encantadora história. Ainda no almoço, adentrou ao restaurante conhecida autoridade de maus bofes. Ao vê-la sorver da taça de capitoso e encorpado tinto, suspeitando-lhe a insuficiência de natalícios, enquadrou-a nos rigores da lei, olimpicamente ignorando protestos do companheiro, que alegava veemente o pátrio poder (para a surpresa da platéia) e, agora, os apelos da solidária turba. Dura lex sed lex! Levaram-na a instituição apropriada. Discretos telefonemas para e do diretor da referida; libertaram-na logo após.

 

 Tais eventos, contou-m’o em confiança o acima nominado, igualmente nosso amigo. Aduziu que o biscuit agora está em dúvida. Não sabe se será candidata à deputada legislativa em vindouro pleito ou se participará do próximo Big Brother Brazil.

As amigas já prometeram dar a maior força.

 

       

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