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Homenagem a Pirandello e a Ionesco
Almoço no
domingo num dos melhores restaurantes da cidade. Na mesa ao
lado, um quadro instigante. Ele, madurão, cabelos prateados
cortados rente, cuidadosamente bronzeado. Ela, por contraste,
treze anos presumíveis, tez alva e louçã. Etérea. A blusinha de
seda, classicamente colorida por avoenga estamparia, apenas
deixava escapar os frágeis pulsos e o pescoço de gazela. Um
camafeu, um biscuit, uma princesinha retirada de um livro de
contos infantis de outrora, de outros séculos, ali
materializada.
Pouco depois, disse à M.:
“Papá e filhinha almoçando juntos”.
“Não, não são pai e filha”, ela
disse.
Continuei minhas elucubrações.
“Claro que são pai e filha”, eu disse.
“Você está enganado”, ela retruca.
“São, não
são, está enganado, não estou”, e assim prosseguimos até que uma
cena ambígua abala minhas convicções: o biscuit leva,
gentilmente à boca do papai, a sua colher, num gesto de delicado
afeto.
“Será ele um pedófilo?”,
pergunto apreensivo.
“Nada disso, ela não é nenhuma
infanta, são apenas um casal”, redargüiu M.
Cultivamos
um longo silêncio – enquanto nossas mentes inconscientes
trabalhavam febrilmente. Súbito, nos olhamos perplexos: ambos
tínhamos razão!
Eventos
ulteriores confirmaram nossas suspeitas. Viviam nos recônditos
de pacata cidade. Ele, modesto comerciante, a mulher, professora
primária, e os filhos, cuja biscuit – a caçula –, freqüentava o
grupo escolar. A vida seguia pachorrenta, quando então o
Maligno apossou-se das suas almas e dos seus corpos:
tornaram-se amásios! Escândalo inominável, o incesto incendiou o
até então plácido burgo. A família – célula mater da
sociedade e dos bons costumes – desintegrou-se. A mãe,
duplamente traída,
imersa em profunda depressão, suicidou-se, ateando fogo às
vestes. Não conseguiram os
traidores resistir à permanência. Acoitaram-se em Brasília.
Na capital
federal, um amigo fiel dos velhos tempos, há muito influente em
governos pretéritos, para ele conseguiu vultosas consultorias. A
ela, não obstante na menoridade, coube dirigir uma importante
Comissão em um dos Três Poderes, que por discrição habitual,
permito-me calar. E assim, desde que aqui chegaram, e pouco mais
de oito anos são passados, depois de se lamberem reciprocamente
as chagas – frutos do pecado – vivem bem, reverenciados e
requisitados pela nata da sociedade, que ignora os acontecidos.
Tiveram até uma filhinha, da qual ela é – ao mesmo tempo – irmã
e mãe, e ele, pai e avô.
Não pense,
leitor amável, que por aí se extingue tão surreal e
encantadora história. Ainda no almoço, adentrou ao
restaurante conhecida autoridade de maus bofes. Ao vê-la sorver
da taça de capitoso e encorpado tinto, suspeitando-lhe a
insuficiência de natalícios, enquadrou-a nos rigores da lei,
olimpicamente ignorando protestos do companheiro, que alegava
veemente o pátrio poder (para a surpresa da platéia) e, agora,
os apelos da solidária turba. Dura lex sed lex!
Levaram-na a instituição apropriada. Discretos telefonemas para
e do diretor da referida; libertaram-na logo após.
Tais
eventos, contou-m’o em confiança o acima nominado, igualmente
nosso amigo. Aduziu que o biscuit agora está em dúvida.
Não sabe se será candidata à deputada legislativa em vindouro
pleito ou se participará do próximo Big Brother Brazil.
As amigas
já prometeram dar a maior força.
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