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Sentado
na quarta fila do teatro, aguardava o início do espetáculo,
quando a vi chegar. Apoiada em uma jovem senhora, lá vinha
ela: curvadinha, passinhos miúdos, cabecinha branca, muito
elegante em seu tailleur azul-marinho. Parecia um
passarinho. Por fim, acomodaram-se na segunda fileira.
Logo
depois da campainha soar pela primeira vez, alertando os
retardatários para o iminente começo da peça, ouvi – sem
entender o significado – gritos (pensei tratar-se duma
discussão), que se transformaram em pungente pedido de
socorro: “Ajudem! Minha mãe!”.
Não lembro
como saltei as cadeiras que nos separavam. Não pensei que há
mais de dez anos trocara a cardiologia para ser “aprendiz de
curandeiro”, que nos meus quarenta e dois anos de medicina
detestava emergências. Só sei que em poucos segundos estava
lá, declinando a minha condição de médico, ultrapassando
algumas pessoas, que, por mais próximas, já ensaiavam alguma
espécie de ajuda.
Cabeça
tombada, face pálida e coberta de frio suor, não tinha pulso.
Enquanto, automaticamente a examinava, surgiu um jovem – que
imaginei colega – a quem pedi para palpar-lhe o pulso direito.
Respondeu-me afirmativamente, o que pude confirmar logo em
seguida. Conseguindo controlar o compreensível desespero da
filha, por ela soube ser a mãe diabética e não-dependente de
insulina. Vi-a, então recomeçar a respirar, e o diagnóstico
estava feito. Poderia ter tido uma súbita hipoglicemia,
seguida de uma síncope vaso-vagal e de possível isquemia
cerebral, como inúmeras vezes acontecera com minha própria
mãe. Já semiconsciente, alguém passou-me um frasco d’água,
outro surgiu com uma bala, enquanto a filha – menos ansiosa –
telefonava para casa, e um segurança assegurava uma cadeira de
rodas, e outra expectadora acionava a ambulância do Corpo de
Bombeiros. Logo depois, saía a velhinha pelos bastidores do
palco.
Inevitáveis associações de idéias. A fragilidade da condição
humana, a lembrança de minha mãe e de meus mortos, de colegas
e amigos recentemente falecidos (viera, aquela noite, da missa
de sétimo dia de um deles para o teatro), a perspectiva da
minha própria morte. Por que não as acompanhei, pelo menos até
a ambulância, criticava-me o meu diálogo interno? Que
comoventes as múltiplas demonstrações de solidariedade humana
– o jovem que me serviu de assistente não era médico, era
engenheiro...Embora tivesse certeza absoluta que um médico –
qualquer médico – que estivesse presente não agiria de modo
diferente. A propósito, lembrei-me de recente palestra que
assistira sobre a “Humanização da Medicina”, mas isto fica
para uma próxima vez.
Finalmente, o sentimento de culpa por esquecer de não ter
passado meu telefone para receber notícias da velhinha, que
tanto me lembrou mamãe, e também por não saber se ela
conseguiu assistir, no dia seguinte, a peça sobre Carmem
Miranda, que – segundo a filha – tanto queria ver.
Publicado: 24.1.2004
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