CRÔNICAS

 

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                        NELSON MARINS

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  MELANCOLIA

   

 

 

      

Sentado na quarta fila do teatro, aguardava o início do espetáculo, quando a vi chegar. Apoiada em uma jovem senhora, lá vinha ela: curvadinha, passinhos miúdos, cabecinha branca, muito elegante em seu tailleur azul-marinho. Parecia um passarinho. Por fim, acomodaram-se na segunda fileira.

 

Logo depois da campainha soar pela primeira vez, alertando os retardatários para o iminente começo da peça, ouvi – sem entender o significado – gritos (pensei tratar-se duma discussão), que se transformaram em pungente pedido de socorro: “Ajudem! Minha mãe!”.

 

Não lembro como saltei as cadeiras que nos separavam. Não pensei que há mais de dez anos trocara a cardiologia para ser “aprendiz de curandeiro”, que nos meus quarenta e dois anos de medicina detestava emergências. Só sei que em poucos segundos estava lá, declinando a minha condição de médico, ultrapassando algumas pessoas, que, por mais próximas, já ensaiavam alguma espécie de ajuda.

 

Cabeça tombada, face pálida e coberta de frio suor, não tinha pulso. Enquanto, automaticamente a examinava, surgiu um jovem – que imaginei colega – a quem pedi para palpar-lhe o pulso direito. Respondeu-me afirmativamente, o que pude confirmar logo em seguida. Conseguindo controlar o compreensível desespero da filha, por ela soube ser a mãe diabética e não-dependente de insulina. Vi-a, então recomeçar a respirar, e o diagnóstico estava feito. Poderia ter tido uma súbita hipoglicemia, seguida de uma síncope vaso-vagal e de possível isquemia cerebral, como inúmeras vezes acontecera com minha própria mãe. Já semiconsciente, alguém passou-me um frasco d’água, outro surgiu com uma bala, enquanto a filha – menos ansiosa – telefonava para casa, e um segurança assegurava uma cadeira de rodas, e outra expectadora acionava a ambulância do Corpo de Bombeiros. Logo depois, saía a velhinha pelos bastidores do palco.

 

Inevitáveis associações de idéias. A fragilidade da condição humana, a lembrança de minha mãe e de meus mortos, de colegas e amigos recentemente falecidos (viera, aquela noite, da missa de sétimo dia de um deles para o teatro), a perspectiva da minha própria morte. Por que não as acompanhei, pelo menos até a ambulância, criticava-me o meu diálogo interno? Que comoventes as múltiplas demonstrações de solidariedade humana – o jovem que me serviu de assistente não era médico,  era engenheiro...Embora tivesse certeza absoluta que um médico – qualquer médico – que estivesse presente não agiria de modo diferente. A propósito, lembrei-me de recente palestra que assistira sobre a “Humanização da Medicina”, mas isto fica para uma próxima vez.

 

Finalmente, o sentimento de culpa por esquecer de não ter passado meu telefone para receber notícias da velhinha, que tanto me lembrou mamãe, e também por não saber se ela conseguiu assistir, no dia seguinte, a peça sobre Carmem Miranda, que – segundo a filha – tanto queria ver.

  

 

  

                Publicado: 24.1.2004

 

 

 

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