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Nelson Marins |
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AVE, FRAN! |
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Foto xenïa antunes
Ave, Fran, que nasceu Françoise, e se tornou François por ignorância da sua emergente (redundância) criadora.
Ave, Fran, miniatura da miniatura dos galgos – de aparência tão frágil, corpo e pernas de vidro, que dava a impressão que iria se quebrar, e que cresceu acostumada ao conforto de sofás, poltronas e almofadas.
Ave, Fran, que aos dois anos, pernalta, deixava passar – não sem alguma irritação – o Tiny, com a sua inocência de filhote, por baixo do seu corpo aerodinâmico, sem adivinhar que logo, logo o inverso aconteceria – com a complacência total do molosso.
Ave, Fran, de uma higiene ímpar, discretíssima nas suas manifestações de afeto, elegante, nobre, agílima, velocíssima, que interceptava os passarinhos em plena decolagem.
Ave, Fran, que latia para os aviões, para a própria sombra, para tudo que estivesse em movimento, e que nutria uma saudável antipatia pelo ruído das motos dos entregadores de revistas.
Ave, Fran, que sempre que a soltava no jardim, expressava a sua alegria, sorrindo – sim, ela sorria –, saltando e batendo palmas com as patas dianteiras, girando sobre o próprio corpo, se exibindo numa carreira frenética, num espetáculo plástico de músculos e tendões, num ritmo tão alucinante que, uma vez, desvairada, errou a trajetória e se embocetou na piscina.
Ave, Fran, que, por sensibilidade aguçada, tinha verdadeiro pavor do estouro dos foguetes e morteiros, pelo que fugiu pelos minúsculos intervalos da cerca do jardim – que somente ao seu corpo esguio permitiam atravessar – somando à angústia da sua ausência à frustração da decepcionante derrota do Brasil perante a França, numa deprimente tarde de domingo.
Ave, Fran, que, com seu desaparecimento, deixou tantas saudades.
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Ave, Fran, que contra todas as expectativas, desafiando a lógica, e por misteriosos desígnios do destino, reapareceu por ínvios caminhos, dois anos depois da sua fuga, comprovando que às vezes a realidade suplanta as mais inimagináveis fantasias.
Ave, Fran, que em muito breve voltou a caçar passarinhos em plena decolagem, latir para sombras, aviões e motos, mas que para não recair na tentação da fuga, passou a contar com uma cerca novinha em folha e, na coleira, uma plaquinha com nome, sobrenome, apelido, telefone e endereço.
Ave, Fran, cujos olhos eram duas enormes jabuticabas, em contraste com o corpo delgado de top model.
Ave, Fran, que um dia teve uma jabuticaba estourada por um glaucoma e cuja outra já estava prejudicada por severa e inoperável catarata, o que não a impedia de latir, correr, comer e brincar, mas que tornava cada vez mais difícil interceptar as aves que roubavam sua ração.
Ave, Fran, que há 3-4 meses surgiu com uma lesão de pele, diagnosticada como câncer metastático, o que impôs a angustiante decisão de tratá-la com quimioterápicos – sujeitos a penosos efeitos colaterais e de inócua eficácia – ou medicação sintomática para alivia-la de dores eventuais e para reduzir a hemorragia, que, agora brotava dos nódulos que se multiplicavam.
Ave, Fran, agora limitada nos seus passeios e brincadeiras no jardim, mas que mesmo deitada em sua cama, continuava a comer, a beber, a demonstrar alegria quando se a chamava pelo nome, e continuava a latir e a rosnar quando sentia o seu espaço invadido.
Ave, Fran, que numa triste segunda-feira morreu com a mesma discrição e elegância com que viveu.
Ave, Fran, muito obrigado pelo que nos deu de tanta satisfação, alegria e prazer em quase dez anos de íntima convivência.
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Ave, Fran, que com o seu desaparecimento, deixou tantas saudades.
Ave, Fran! Mais uma vez, obrigado. Adeus.
Publicado: 8.12.2004 © Nelson Marins
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