
Há alguns anos participei
de um Campus Internacional para mais uma certificação de hipnose. Mendes, o
local do crime, é uma cidadezinha no interior fluminense aonde cheguei,
egresso do Rio, horas depois. Com direito a doses extras de emoção, eis que
cruzamos a linha vermelha para arrebanhar participantes estrangeiros que nos
aguardavam no Galeão.
Sendo eu moço gentil e de
hábitos simples, não me fizeram mossa as dependências espartanas do hotel –
tradicional seminário de vetusta beleza. Vai daí que, tranqüilamente, me
instalei no cubículo que me fora destinado e à minha acompanhante (uma
belíssima gripe).
Com o mesmo espírito de
paz interna e compaixão, magnificado pelo sacro ambiente, me dirigi ao
modesto refeitório – não era restaurante, era refeitório mesmo –, onde me
aguardava uma saudável refeição à base de exuberantes frutas e frescos
vegetais colhidos na própria horta, e de galináceos ali criados. Tudo isto
manuseado com maestria por uma imensa cozinha industrial.
Confesso que me senti
beatificado por alimentação tão frugal, resguardada do progresso duvidoso
dos pesticidas. Apenas sorvi uma taça de deliciosa e sadia cerveja, em
detrimento do vinho, posto que o único disponível se encontrava embalado
numa prosaica garrafa de plástico. Detalhe que absolutamente não empanou a
plenitude do momento. E assim, em plena comunhão com a natureza, retirei-me
do recinto para tratar dos inúmeros quê fazeres.
Três dias de campi
e monotonia alimentar depois, eu não queria mais saber de refeitórios nem
de refeições – os anfitriões assim insistiam em chamá-las. Eu queria
almoçar, jantar, tomar café-da-manhã! Chega de frangos sertanejos!
Ansiava por um filé de congro rosa com molho de roquefort, um tutu de feijão
com farofa de ovo, um talharim al dente, talvez um arroz selvagem.
Queremos agrotóxicos! Meu reino por uma pizza! Viva o colesterol!
Estava, pois, na minha
mente, implantada a semente da sedição. Pelo que à noite esgueirei-me, à
socapa e à sorrelfa, tendo aliciado antes um companheiro que – prevenido –
viera de carro, e solidário naquela frustração alimentícia. Lançamo-nos
então, destemidos, à busca gloriosa de algo que – naqueles ermos – se
assemelhasse a um restaurante, ou mesmo a uma casa de pasto que saciasse a
nossa fome zero.
Nossa brancaleônica
incursão passou longe do sucesso. Contabilizamos uma
pizzaria
(fechada), uma baiúca, cujas únicas opções (recusadas) se limitavam a uma
cerveja – quente, porque a geladeira não estava funcionando – e a um
pacotinho de biscoitos amorfos e matusalênicos.
Mas não seriam tais
decepções que arrefeceriam o ânimo de dois famélicos bravos. Pelo que
embrenhamo-nos nos subúrbios do modesto burgo, onde nos deparamos com
esperançoso letreiro afixado na fachada do que houvera sido uma minúscula
garage: “Comida caseira” – com o “s” invertido. Vitória!
Efêmera, porém. À minha
primeira questão, se o menu era à la carte – estava farto de buffets –,
quedou-se em perplexa afasia o nosso
host,
que acumulava as funções (pensava eu) de
maitre,
garçom, somellier e
chef de cuisine.
Perplexidade, por sinal,
compartilhada por Celso Castro, o indômito companheiro de odisséia, para
quem minha pergunta fora absurdamente anacrônica, atribuindo-m’a ao cansaço
e emoções da peregrinação. Recuperado o escanção, propôs-nos preparar uma
dobradinha inesquecível. Acreditando na sinceridade das suas palavras,
espaventamo-nos e saímos correndo porta a fora.
Desorientados e com os
estômagos às costas aderidos, ainda fizemos derradeira tentativa junto a um
monte de populares que se aglomeravam frente a uma portinhola na mesma rua.
Minhas conexões neuronais alucinavam ínvios trajetos: é uma festinha
familiar e vão nos convidar para compartilharmos salgadinhos, brigadeiros e
– quem sabe? –, um honesto jantar. Desilusão, mais uma! Era uma assembléia
religiosa à qual, piedosamente, nos incitaram a participar. A seco!
Agradecemos a gentileza e nos esbofamos até o carro.
Conclusão: Como Deus tarda
mas não falta, encontramos uma padaria aberta, dessas bem típicas de vilas
do interior, onde aprovisionamo-nos dos nossos acepipes. Vários tipos de
pão, inclusive aquele com uma moldura de creme amarelo-diarréia, queijo
prato, presunto, “mortandela”
e – oh!, nostálgica surpresa da infância – bororós! Sobremesa mariolas. Os
bororós estavam ótimos...