CRÔNICAS
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      Nelson Marins

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         Faisão, Javali e Tinto Chileno

 

 

                                             Agruras  de um gourmet

 

Há alguns anos participei de um Campus Internacional para mais uma certificação de hipnose. Mendes, o local do crime, é uma cidadezinha no interior fluminense aonde cheguei, egresso do Rio, horas depois. Com direito a doses extras de emoção, eis que cruzamos a linha vermelha para arrebanhar participantes estrangeiros que nos aguardavam no Galeão.

Sendo eu moço gentil e de hábitos simples, não me fizeram mossa as dependências espartanas do hotel – tradicional seminário de vetusta beleza. Vai daí que, tranqüilamente, me instalei no cubículo que me fora destinado e à minha acompanhante (uma belíssima gripe).

Com o mesmo espírito de paz interna e compaixão, magnificado pelo sacro ambiente, me dirigi ao modesto refeitório – não era restaurante, era refeitório mesmo –, onde me aguardava uma saudável refeição à base de exuberantes frutas e frescos vegetais colhidos na própria horta, e de galináceos ali criados. Tudo isto manuseado com maestria por uma imensa cozinha industrial.

Confesso que me senti beatificado por alimentação tão frugal, resguardada do progresso duvidoso dos pesticidas. Apenas sorvi uma taça de deliciosa e sadia cerveja, em detrimento do vinho, posto que o único disponível se encontrava embalado numa prosaica garrafa de plástico. Detalhe que absolutamente não empanou a plenitude do momento. E assim, em plena comunhão com a natureza, retirei-me do recinto para tratar dos inúmeros quê fazeres.

Três dias de campi e monotonia alimentar depois, eu não queria mais saber  de refeitórios nem de refeições – os anfitriões assim insistiam em chamá-las. Eu queria almoçar, jantar, tomar café-da-manhã! Chega de frangos sertanejos! Ansiava por um filé de congro rosa com molho de roquefort, um tutu de feijão com farofa de ovo, um talharim al dente, talvez um arroz selvagem. Queremos agrotóxicos! Meu reino por uma pizza! Viva o colesterol!

Estava, pois, na minha mente, implantada a semente da sedição. Pelo que à noite esgueirei-me, à socapa e  à sorrelfa, tendo aliciado antes um companheiro que – prevenido – viera de carro, e solidário naquela frustração alimentícia. Lançamo-nos então, destemidos, à busca gloriosa de algo que – naqueles ermos – se assemelhasse a um restaurante, ou mesmo a uma casa de pasto que saciasse a nossa fome zero.

Nossa brancaleônica incursão passou longe do sucesso. Contabilizamos uma pizzaria (fechada), uma baiúca, cujas únicas opções (recusadas) se limitavam a uma cerveja – quente, porque a geladeira não estava funcionando – e a um pacotinho de biscoitos amorfos e matusalênicos.

Mas não seriam tais decepções que arrefeceriam o ânimo de dois famélicos bravos. Pelo que embrenhamo-nos nos subúrbios do  modesto burgo, onde nos deparamos com esperançoso letreiro afixado na fachada do que houvera sido uma minúscula garage: “Comida caseira” – com o “s” invertido. Vitória!

Efêmera, porém. À minha primeira questão, se o menu era à la carte – estava farto de buffets –, quedou-se em perplexa afasia o nosso host, que acumulava as funções (pensava eu) de maitre, garçom, somellier e chef de cuisine.

Perplexidade, por sinal, compartilhada por Celso Castro, o indômito companheiro de odisséia, para quem minha pergunta fora absurdamente anacrônica, atribuindo-m’a ao cansaço e emoções da peregrinação. Recuperado o escanção, propôs-nos preparar uma dobradinha inesquecível. Acreditando na sinceridade das suas palavras, espaventamo-nos e saímos correndo porta a fora.

Desorientados e com os estômagos às costas aderidos, ainda fizemos derradeira tentativa junto a um monte de populares que se aglomeravam frente a uma portinhola na mesma rua. Minhas conexões neuronais alucinavam ínvios trajetos: é uma festinha familiar e vão nos convidar para compartilharmos salgadinhos, brigadeiros e – quem sabe? –, um honesto jantar. Desilusão, mais uma! Era uma assembléia religiosa à qual, piedosamente, nos incitaram a participar. A seco! Agradecemos a gentileza e nos esbofamos até o carro.

Conclusão: Como Deus tarda mas não falta, encontramos uma padaria aberta, dessas bem típicas de vilas do interior, onde aprovisionamo-nos dos nossos acepipes. Vários tipos de pão, inclusive aquele com uma moldura de creme amarelo-diarréia, queijo prato, presunto, “mortandela” e – oh!, nostálgica surpresa da infância – bororós! Sobremesa mariolas. Os bororós estavam ótimos...

                                                 (Continua)

 

 

                Publicado: 21.02.2006

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