
O estimado leitor já tem
conhecimento do meu estoicismo. Mas uma coisa é ser estóico, e outra é ser
lacedemônio, o que não o sou. Por isso, no sábado seguinte, três quilos mais
magro – nenhuma culpa coubera à gripe –, declarei guerra frontal ao tédio do
cardápio e à indigência das refeições e refeitórios (Celso, a
esta altura já debandara, reconciliando-se com as múltiplas escolhas
culinárias da sua Teresópolis). Proclamei solenemente: “Amanhã vou à
Vassouras de táxi almoçar num restaurante decente. Quem for brasileiro, me
siga!”, assumindo explicitamente o comando do motim.
E, no glorioso domingo,
brilhando o sol da liberdade em raios fúlgidos,
embarcou numa van que alugáramos uma liga das nações, posto que ao meu brado
retumbante aderiram nativos e adventícios (os últimos se naturalizaram nesse
instante), sonsos e acomodados que estiveram, bovinamente ruminando a
forragem insípida do refeitório. Destarte, transmutou-se uma
vilegiatura individual em heróica incursão gastronômica.
Após quatro inglórias
tentativas, inquiriu-me o Fernando Müller – colega etílico de baixos teores
– “o quê exatamente eu procurava”, mal escondendo uma ponta de irritação.
Modestamente respondi que não almejava nada de mais, que me contentaria com
um simples faisão, um prosaico javali, um reles vinho tinto chileno. O final
da frase foi abafado por estrondosa vaia dos companheiros da van,
capitaneados pelo Fernando, que incontinenti destitui-me da liderança da
expedição culinária.
Assim é que com as orelhas
em brasa e sem mais direito a voz e voto – além da humilhante demissão,
cassara-me a palavra – chegamos a uma improvável churrascaria rodízio de
beira de estrada, onde nos recepcionaram dois igualmente famintos e
amigáveis vira-latas.
Iniciado o repasto, lá
pelas tantas nosso garçom anunciou: javali! O amapaense, perplexo,
fez cara de paisagem, enquanto eu esboçava comedido sorriso. Mais adiante:
faisão!! Confesso que temi um ataque apopléctico do amigo, na medida
em que meu sorriso se ampliava. E foi num frouxo de risos que degustamos um
honesto tinto chileno!!!, quando retomei o comando da operação, pois
o gourmet é antes de tudo um forte. E depois do opíparo e saboroso
ágape, fomos dançar na praça da matriz.
Desde então, numa
insistência patológica, o Fernando me pergunta qual a estratégia que uso
para obter seja o que for.
PS:
Esta crônica é uma singela homenagem ao saudoso amigo Nilton Noronha, e a
Bel, sua mulher, testemunhas dessa história, e com quem tive o privilégio de
dividir inestimáveis momentos de amizade.
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