CRÔNICAS
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      Nelson Marins

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O HOMEM QUE CHEIRAVA JORNAIS

 

 

                                        

dias, como houvera contratado uma desratização em casaafinal, como vizinho da Praça dos Três Poderes, urgem dedetizações semanais – mandei baixar o Ao Mirante Nelson, minha modesta lancha, e dispus-me a sair al mare para homenagear o astro-rei.

 

Outrossim, em plena manhã de uma quarta feira, enquanto a patuléia se esfalfava no trabalho, adquiria eu um belíssimo bronzeado contrastante com meus lindos olhos verde-azuis. Ressalte-se que era o único a flanar no lago Paranoá, aonde ancorei por tempo suficiente para ouvir uma provocação da rafaméia, que de carro transitava na ponte da barragem: “Vida boa, hein, coroa?”. Ao que respondi, superiormente, embora faltando à verdade: “Também fui pobre, Caim!”.

 

Horas depois, com os raios solares castigando a minha sensível cútis, experimentei a difícil escolha existencial entre degustar uma tainha com farofa de camarões numa rústica casa de pasto à beira lago, ou um buffet de frutos do mar num restaurante sofisticado.

 

Confesso que por razões logísticas ainda tentei a primeira opção. Porém, quase atracando, meus tímpanos se melindraram com os formidandos decibéis emitidos pela escumalha, que conversava coloquialmente aos berros, como brasileiro sabe fazê-lo com notável proficiência.

 

Assim é que, como velho lobo do mar, apontei a minha proa em direção à alternativa, com escala na Vila Náutica, para trocar a via lacustre pela terrestre.

 

Tedioso seria reportar que em chegando fui recebido com as alvíssaras habituais, de como estava a minha saúde, o meu pretérito Carnaval e amolados et coetras. Enquanto chupetilhava um Carpano Punt Mess on the rocks, atraiu-me um fato inusitado, eis que percebi na varanda do bar um sujeito que cheirava os jornais que lia. vi na minha vida o bastante para não me escandalizar com o que quer que seja. No entanto, como curioso animal que sou, protegido por uma vidraça, apropinqüei-me do cidadão. Translumbrei-me então, posto que na realidade ele beijava as páginas, sem discriminá-las, fossem elas relativas à política, esporte ou economia.

Fascinado, me aprestava em abordá-lo para pedir-lhe que me explicasse se o evento se devera a alguma promessa, gratidão ou o que quer que fosse, quando a chegada de um amigo abortou minha iniciativa.

 

O restante pode ser resumido em opíparo banquete, para o qual contribuíram afrodisíacas ostras de Cananéia (minto, foram geradas em Floripa, o que não lhes retirou o mágico encanto), lagostas supimpas e outros crustáceos decápodes halterofilistas. Acompanhados – é claro – de um honesto rosé francês.

 

PS: Tempos depois estava eu no bar do Piantella, restaurante do qual sou sócio atleta e fundador, quando encontrei o supracitado cidadão. Como é o meu clube inglês, em que cada um conhece cada qual, me informaram sabido o dito comportamento estrambótico, apesar de se tratar de um cliente noviço e bissexto. Desde então temos nos visto com certa freqüência. Começamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, ao que se seguiram sorrisos amplos e “como vamos?”, até que recentemente nos desejamos felizes Páscoas.

 

Quando tivermos um pouco mais de intimidade, juro que vou perguntar.

 

Em 16 de abril de 2007.               

Publicado em 16/4/2007

© Nelson Marins

 

             

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