Há
dias, como houvera contratado uma desratização em casa – afinal, como vizinho da Praça
dos Três
Poderes, urgem dedetizações
semanais – mandei baixar o Ao Mirante Nelson, minha
modesta lancha, e
dispus-me a sair al mare para homenagear o astro-rei.
Outrossim,
em
plena manhã
de uma quarta
feira,
enquanto a
patuléia
se esfalfava no trabalho, adquiria eu um belíssimo
bronzeado contrastante com meus lindos olhos
verde-azuis. Ressalte-se que era o único a flanar no lago Paranoá, aonde ancorei por
tempo suficiente
para ouvir uma provocação da rafaméia, que
de carro transitava na ponte da barragem:
“Vida boa,
hein,
coroa?”. Ao que
respondi, superiormente, embora faltando à verdade: “Também
já
fui pobre, Caim!”.
Horas
depois,
com os raios
solares castigando a minha sensível cútis, experimentei a difícil
escolha existencial
entre
degustar uma tainha
com farofa
de camarões numa
rústica
casa de pasto
à beira
lago,
ou um
buffet de frutos
do mar num
restaurante
sofisticado.
Confesso
que
por razões
logísticas ainda
tentei a primeira
opção.
Porém, já
quase atracando,
meus
tímpanos se melindraram com os formidandos decibéis emitidos pela escumalha, que
conversava coloquialmente
aos berros, como só brasileiro sabe fazê-lo com notável
proficiência.
Assim
é que,
como velho
lobo do mar,
apontei a minha
proa
em direção à alternativa, com
escala na Vila
Náutica, para
trocar a via lacustre pela terrestre.
Tedioso
seria reportar
que em
lá chegando fui recebido com as alvíssaras
habituais, de
como
estava a minha
saúde, o meu
pretérito
Carnaval e amolados et coetras. Enquanto chupetilhava um
Carpano Punt Mess on the rocks, atraiu-me
um
fato inusitado,
eis que
percebi na varanda do bar um sujeito que cheirava
os jornais
que
lia. Já vi na
minha vida
o bastante
para
não me
escandalizar com
o que
quer
que seja. No
entanto,
como curioso
animal que
sou, protegido
por
uma vidraça,
apropinqüei-me do cidadão. Translumbrei-me então,
posto que
na realidade
ele
beijava as páginas,
sem
discriminá-las, fossem elas
relativas à política, esporte
ou economia.
Fascinado,
já me aprestava em
abordá-lo para pedir-lhe
que
me explicasse se o
evento
se devera a alguma promessa,
gratidão
ou o que
quer que
fosse, quando a
chegada
de um amigo abortou
minha
iniciativa.
O restante
pode ser resumido em opíparo banquete,
para o qual
contribuíram afrodisíacas ostras
de Cananéia (minto, foram geradas em
Floripa, o que
não
lhes retirou o
mágico
encanto),
lagostas
supimpas e outros
crustáceos decápodes halterofilistas. Acompanhados – é
claro
– de um
honesto
rosé francês.
PS:
Tempos depois estava eu
no bar do Piantella,
restaurante do qual sou sócio atleta e fundador, quando encontrei o supracitado
cidadão. Como
lá é o meu
clube inglês,
em que
cada um
conhece cada
qual,
me informaram já
sabido o dito
comportamento
estrambótico,
apesar de se tratar
de um
cliente
noviço e bissexto.
Desde então
temos nos
visto
com certa
freqüência. Começamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, ao que se seguiram sorrisos
amplos e “como
vamos?”, até
que
recentemente nos
desejamos felizes
Páscoas.
Quando
tivermos um
pouco mais
de intimidade,
juro
que vou perguntar.
Em 16 de abril de 2007.
Publicado em
16/4/2007