ou

QUEM O TEM, TEM MEDO
Primeiro
ato: Da ascensão
do dito
cu jo
Perdoe-me,
leitor sensível, pelo turpilóquio em epígrafe, mas, como
previra Andy Warhol, também a extremidade distal do reto,
desde sempre
presente no léxico
do populacho, conquistou status de celebridade
e ganhou os salões.
Como
se não
bastara tal
upgrade social, aquele até então discreto detalhe
da nossa
anatomia
transformou-se em
roteiro
e trilha
sonora
de peça
teatral, e em
vídeo
de sucesso, assistido mais de um milhão de vezes
na Internet
em
apenas duas
semanas.
Conforme o esperado, sua proprietária
também foi entrevistada no Programa do Jô. Mais:
ganhou vida
própria
e introduziu-se (cáspite!) no repertório musical do “Quinteto
Onze e Meia” (“Tire o seu dedinho do meu...,
que
ele esta doendo
pra
chuchu”), substituindo com categoria, a
letra de diversos
clássicos, interpretados com rara emoção e entusiasmo. Com
tamanha autonomia,
surpreendeu-me apenas que tão insigne personagem não houvera sido igualmente
entrevistado no dantes mencionado talk show. Enfim,
o nossa
amizade
galgou por
mérito
próprio um lugar ao sol.
Corte
para uma
reunião de amigos
na varanda de
um
apartamento.
Incomodado
com os acordes
do pinho,
solidário
à alegria cantante da rapaziada, eis que um vizinho de maus
bofes se esgoela numa
vulgar
pachouchada: “Vão
tomar no...” referido! No
mesmo
ato, o virtuose começou a
improvisar, tomando o
mote pornofônico como
refrão: “Vai tomar
no”, digamos, “ânus, vai
tomar
no ânus”, repetidamente,
em
estilo de dízima
periódica, variando
escalas,
tons e timbres.*
Muito
tempo
depois, Cris Nicolotti, protagonista daquela tertúlia,
aproveitou o episódio algures descrito, para
inseri-lo (epa!) na peça Se
piorar estraga. Daí até
a gravação do
videoclipe
estourar nas paradas
da Internet foi
um
átimo. Diga-se
que
ela já
tinha 30 anos
de carreira
como
atriz de teatro,
de novelas e de campeã de vendas pela TV.
A bem da verdade,
declarar-se-ia
que sua
interpretação é
dramática, a voz,
suave
e afinadíssima, o coro,
irreprochável, e
que os arranjos
musicais primorosos se harmonizam à bela
melodia. Em
adição, a letra
é simples e
fácil
de memorizar. A
resultante, o conjunto
da obra
me parece um
acalanto, uma berceuse, uma
melopéia, uma balada. Veja, estimado leitor,
como
o caminho do
sucesso, da fama e da
celebridade
já está tão
perto de você,
embora não
necessariamente nas suas mãos. Basta apenas um pouco de criatividade...

Segundo
ato: Das angústias
e agruras
de uma situação
mal
definida
Quem
tem ânus, tem medo
– Aforismo popular, ligeiramente
adaptado em
respeito
à (falsa)
moral
vigente.
Não
imagine, leitor
preocupado, ter
relação o que
se segue ao estado de espírito do atual
presidente do
Senado
Federal, pelas
suas
explicações canhestras e não convincentes
do constrangedor e mais recente episódio
em que
se envolveu. Isto fica
para
um próximo artigo. O assunto
em tela
não tem nada
de imoral e diz
respeito
ao autor destas mal-traçadas.
Encontrava-me
eu posto em sossego, eis que uma creatinina
inusitadamente
elevada atropelou
minha
amorável rotina.
Pouco adiantaram as
opiniões
tranqüilizadoras dos meus
estóicos colegas, que o aumento era tão irrelevante
quanto o do
salário
mínimo, que a
situação necessitava tão somente de uma discreta restrição de proteínas, que aquilo correspondia à síndrome
do aniversário acumulado, e
que o supra-assinado longe estava da indicação
da diálise
ou
do transplante
renal.
Não tenho certeza,
mas creio que
lobriguei um
brilho
diferente e temeroso
no olhar do meu
cachorro, que
passou a me
evitar.Apreensivo, talvez,
por se considerar,
equivocadamente, um
potencial
doador.
Escuse-me,
leitor pudendo, pelos detalhes pseudo-escatológicos
que
se seguirão. Mesmo sendo médico, comungo com
você de uma certa
pudicícia em
revelar tais intimidades, posto
que não
somos políticos
ou
governantes. Só
o faço, contrafeito, em favor do seu melhor entendimento. O fato
é que, transmutada a dieta, modificou-se igualmente
o ritmo
intestinal, a freqüência
das exonerações
e a forma das
dejeções.
Por via de conseqüência, como
dizia Aureliano Chaves,
surgiram-me puxos e tenesmo, o que
exacerbou o já existente estresse.
Estresse
esse
para o qual
contribuíra a reforma iminente da casa, a qual
pagarei diretamente
em
cheques de fundos
provenientes do meu
trabalho
honesto, e
diretamente
aos credores,
sem
interpostos lobistas. Aproveito para declarar que não vendo gado nem tenho fazendas, já que sendo homo urbanus detesto
dípteros culicídeos, e acho uma sacanagem antiecológica,
uma mais-valia, a
exploração de seres
tão ternamente
bovinos, como
os próprios e
como
o povo
brasileiro.
Assim,
pelo desconforto crescente,
com meu
diálogo interno
me atazanando – “Pode
ser
a mudança da
dieta,
aliada ao estresse
e/ou uma
hipertrofia
da próstata”, “Hemorróidas
também podem estar
contribuindo”, “É, mas não se pode afastar a hipótese de um tumor” – restou-me a alternativa
de procurar o protologista. O
qual
me atendeu com
presteza,
competência
e com a
maior
gentileza
possível, considerando esse
tipo
de exame. Desta forma, mais sereno pelo diagnóstico tranqüilizador, retornei ao meu
tugúrio com
uma receita na
mão
e boas idéias na
cabeça.
Fugaz
tranqüilidade,
porém. Ao ler
a bula do
fármaco
deu-me ganas de
matar
– e depois,
processar
e prender – o
fabricante,
tamanha a quantidade
e diversidade das
contra-indicações,
interações
terapêuticas
e efeitos
colaterais
da merda do supositório, dos quais o mais comezinho era a
morte súbita!!!
Além desta
irrelevante
reação adversa
– para a genetriz do
fabricante
– a droga (denominação muito
apropriada)
poderia
causar queda das plaquetas, insuficiência
renal e úlcera
gástrica perfurada. Pombas! Eu já avisara ao
especialista ser portador de uma plaquetopenia idiopática, de uma insuficiência renal,
embora incipiente,
e que tivera
úlcera
péptica em
priscas eras. E o fizera três vezes, como São Pedro,
obtendo sempre a
mesma
resposta de que
aquela era a medicação adequada, que não havia substituto e que
deveria usá-la.
Estabelecido o
contencioso,
me encontrei
novamente
numa escolha de Sofia,
pois
o mal-estar persistia: uso ou não uso o supositório assassino,
consulto ou
não
minha personal
vidente. Sim, posto que a parte
examinada revelara apenas uma inflamação inespecífica... Mas,
e se houvesse alguma coisa
lá pra
cima?
Confuso,
angustiado e inseguro
sobre o quê
tinha realmente,
e o quê deveria
fazer,
já me
dispunha a viajar para
a Mayo Clinic, eis
que
– eureka! –, surge providencial sugestão. Por que não fazer uma escala em São Paulo no
vôo para a clínica americana?
Pela
enésima
vez, aprestei-me a
acionar
os dadivosos
préstimos
do meu
fraterno
e polivalente mentor,
consultor para assuntos de saúde
e embaixador
em
São Paulo, para
tal desiderato.
Resposta célere,
comme d’habitude, do meu facultativo:
“Venha imediatamente! Já marquei sua
consulta com uma
especialista
da minha
inteira
confiança, referência
internacional”.

Grand Finale
Lembrar-se-ia o
sapiente
leitor de uma seção
da avoenga
Seleções do Reader’s Digest, cognominada “Meu tipo inesquecível”?
Pois era um ícone do próprio com quem me
encontrava, às 10 da noite, na sua requintada clínica,
no mesmo
dia
em que
chegara à Paulicéia desvairada. Por obra e graça do meu generoso e sempre
tolerante adviser,
seu amigo e colega
de docência. Elegantíssima no
trato, na postura
e no biótipo
de manequim, acolheu-me
com
atenção e carinho,
mitigando meus
temores.
Sem qualquer
traço de arrogância,
embora portadora de invejável currículo,
o oposto do
estereótipo
do Professor
Doutor.
Realizado
novo exame
proctológico com
extrema
competência e com
um mínimo desconforto, prescreveu-me
instruções
para uma colonoscopia de rotina.
Não posso me
furtar de expor, leitor detalhista,
que a doutora preencheu ditas orientações com
uma soberba caneta
coral – não
identifiquei a grife –, cujo matiz combinava exatamente com
o esmalte das unhas. Mais: fê-lo com
tinta violeta
e, supremo
requinte, molhando a pena
no tinteiro.
Assim
é que, na
manhã seguinte,
quatro horas
e seis
exonerações
depois, encontrava-me apto para a investigação alhures
mencionada. A qual sucedeu-se sem quaisquer intercorrências.
Conseqüentemente, após
um período de
resguardo para
que se dispersassem os efeitos do indispensável
sedativo, enderecei-me ao Mássimo,
direto
e sem
escalas,
aonde me
aguardava frugal,
porém
saboroso, almoço.
Com direito,
à noite, a
um
esplêndido
bacalhau
“espiritual” n’ A
Bela
Sintra – donde sou sócio
atleta
–, com
breve
pit stop no bar
a fim de
degustar
uma flûte de um
honesto Krug, comemorando o
feliz resultado do já
citado exame.
Resultado
esse que
a própria
esculápia
gentilmente já
m’o houvera comunicado.
Dest’arte,
em
vista dos sucedidos, reitero para os devidos fins e a quem
possa interessar, que
a partir de então
delego ao alvitre da proficiente especialista quase tudo (eu disse quase tudo) que
haja por bem fazer com meu precioso reto, do qual
se torna
fiel
depositária e
bastante
procuradora.
* O
vídeo veiculado
pela Internet,
a entrevista que
explica a origem da
composição
e o colóquio de Cris Nicolotti com Jô Soares,
encontram-se disponíveis no site do YouTube. Por
uma questão de pejo,
o supra-assinado reserva-se o direito
de
omitir o título
original da obra,
preferindo substituí-lo por mais palatável
(?!) eufemismo.
Em 13 de julho de 2007.
Publicado em
16/07/2007