CRÔNICAS
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      Nelson Marins

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MEMÓRIAS DE UM PESADELO

 

 

 

“Lasciate Ogne Speranza voi ch’Entrate”

Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança

Dante Alighieri, A Divina Comédia.

 

                                    

 Cérbero, de Gustavo Doré (1832-1883)

 

Em 1952, quando muitos de vocês ainda ressonavam nos espermatozóides e óvulos dos seus papais, mamães e vovós, eu cursava o terceiro ano científico e um pré-vestibular de medicina no Rio. Onde, modéstia a parte, nasci e vivi muito bem grande parte da minha vida. Como soía acontecer, isto significava uma sobrecarga imensa, pois o critério de seleção era burro, a quantidade de matérias e seus conteúdos, absurda, o tempo de preparaçãoum ano –, exíguo, e o número de candidatos, aaah! Doze vírgula cinco por vaga.

 

Daí, numa sala enorme e repleta, onde, em vão, procurava identificar meus doze inimigos – a maior dificuldade era descobrir a metade do competidor restante –, os professores vomitavam, literalmente, as matérias, pois não havia tempo a perder.

 

Durante dez meses estudei exatas doze horas por dia, inclusive sábados, domingos e feriados, aumentando este circo de horrores para dezesseis horas a dois meses do holocausto. Como se não bastasse, e como bem o sabe o adventício leitor, no Rio de Janeirofevereiro e março –, em fevereiro, em fevereiro tem Carnaval. E apesar de não ter um fusca nem um violão, de não ser Flamengo nem ter uma nega chamada Tereza, fui obrigado a estudar com algodão nos ouvidos. Graças aos altíssimos fonoclamas próximos à minha casa, que vociferavam sambas e marchinhas do tríduo momesco.

 

Nas noites anteriores à data fatal, o sono não vinha. Deitado na cama, imagens e sons de filme noir se sucediam num ritmo alucinante: “... f = my (efe é igual a eme gama),” nas mesmas condições de pressão e temperatura os volumes dos gases participantes de uma reação química podem ser expressos por números inteiros e pequenos...”Sim, decorei todas as fórmulas de Física e Química! ”Briófitos e pteridófitos: grupos de plantas sem flores, que formam esporângios nas folhas ou em folhas modificadas, cujos órgãos sexuais aparecem em pequenas plantas taliformes, ou prótalos, procedentes dos esporos formados pelas plantas verdes normais, conhecidas como avencas ou samambaias, por exemplo, e que se dividem em seis classes, pombas! Entendeu, obtuso vestibulando? Nem eu. Mas decorei, também, todas as classificações de Botânica, todos os programas de Biologia e de Zoologia: “filos, classes, ordens, gêneros, espécies, subespécies, celomados, pseudocelomados...” “Ortópteros onívoros, ordem blatários, que põem ovos em ootecas”, ou seja, esses insetos nojentos chamados baratas “. Aposto que Dante se inspirou num vestibular para escrever o Inferno... .

 

 Eu nem pensava mais em passar. Contendo o vômito a cada vez em que revisava as matérias, eu queria fazer as provas para poder voltar a dormir, ir à praia, às boates, levar a vida simples das pessoas normais. queria terminar os exames para poder curtir as menininhas, e outras nem tanto, retomar os treinos de artes marciais e de levantamento de peso. queria me livrar daquele suplício chinês, daquela ansiedade angustiante, daquele estresse permanente, que na época nem sabia que existia. Mas que sentia, sentia.

 

Finalmente, numa tarde sinistra, marchei ao encontro do meu destino. Alea jacta est! Naquela, e em outras tardes igualmente aziagas, antes e depois das provas, conversando com os inimigos dissimulados, alucinava que eles sabiam tudo e que eu não sabia nada. Um deles, sobremaneira, me arrasava com  seus comentários professorais : “Na questão assim-assim, eu respondi, pimba! Na questão assim-assado, eu respondi, pimba! E de pimba em pimba eu mais me aterrorizava. A minha vaga erapimba! – dele, pombas!    

 

O que não me impediu de carimbar a vigésima primeira das oitenta vagas entre os mil candidatos. Nem que ele fosse reprovado no primeiro teste, pimba! (rarararará). Assinale-se que o referido exame foi tão massacrante que, meses depois, abriram novo concurso para preencher as vagas que sobraram. Fato único até então, pelo menos na história da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

 

 Foto: ronnieb/MF

Muitas coisas mudaram nos últimos cinqüenta anos. O advento da informática permite hoje que você faça um monte de pesquisas sem sair de casa. Outrossim, graças à alta tecnologia, temos acesso a fotos e filmes coloridos em três dimensões que facilitam em muito o processo de compreensão, nos dispensando dos malabarismos da imaginação surrealista de antanho. Em virtude, pois, das maravilhas do progresso, não mais sentimos aflições, agonias e gasturas. Mas, por que será que continuamos a experimentar doses cavalares de estresse e tensão na iminência de um vestibular, de um concurso público ou mesmo de outros tipos de exames?

 

O que parece é que a essência do processo não se modificou. Os critérios de avaliação continuam imbecis, há um crescimento exponencial do número de candidatos e uma diminuição idem das vagas. Temas bizantinos, sofistas, programas ectoplásmicos capazes de humilhar qualquer prêmio Nobel, questões mal formuladas que reprovariam as mentes doentias dos próprios organizadores das provas, e métodos arcaicos de ensino mantêm o pesadelo dos concursos. Além do mais, há uma nova crença coletiva de que, mesmo pra vender pipocas ou cachorros-quentes, você tem de ter um diploma de curso superior, um MBA ou um PhD.

 

Vai daí, continuamos a ver pais e cônjuges (argh!) nervosos e professores e alunos neuróticos, estes últimos abarrotando auditórios enormes e babilônicos, onde ninguém se entende: a maioria desses heróicos atores sequer imagina os conceitos, técnicas e estratégias dos mais recentes e revolucionários métodos de aprendizagem.

 

Assim, dedicamos esta crônica a vocêsvestibulandos, concursandos (argh!), alunos e mestres –, que aguardam seus próximos exames com os nervos à flor da pele, ou entediados, as suas aulas. Vamos transferir-lhes as mais recentes ferramentas dos modelos das neurociências, da programação neurolingüística, da hipnose ericksoniana, da aprendizagem acelerada e da FotoLeitura, entre outras. Assim, alunos e professores poderão aprender como aprender o que quer que seja com bom humor, irreverência e prazer, com maior rapidez, facilidade e eficácia.

 

Mas isto é assunto para outros artigos. Aguardem.

 

 

Escrito em 15/11/2007

Publicado: 20/11/2007     

 

 

             

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