A QUE VEIO A CONFRARIA

 Nelson Marins

 

     O lançamento d’ A Confraria em junho de 2003  ultrapassou as nossas melhores expectativas. Além das estatísticas, que revelam um surpreendente número de acessos ao site, continuamos a receber centenas de e-mails, cartas e telefonemas nos parabenizando – em sua quase totalidade – pela forma e conteúdo da revista. Pela absoluta impossibilidade de agradecer individualmente a todas as manifestações de apoio, aproveitamos esta oportunidade para fazê-lo.

 

     Agradecemos, igualmente, a uma minoria que nos critica quanto à linha política do hebdomadário, considerando-a panfletária. Isto demonstra, mais uma vez, que o mesmo fenômeno pode ser observado sob perspectivas infinitas, como as múltiplas figuras obtidas quando giramos um caleidoscópio. Qual é a real? Qual a mais verdadeira? Parece que a resposta mais adequada é a de que todas aquelas que são captadas pela percepção de cada um, isto é, só conseguimos ver o que os nossos filtros neurológicos, sócio-culturais e individuais nos permitem perceber. Isto significa, por exemplo, que duas ou mais pessoas podem discordar sem que estejam sem razão. Aliás, a diversidade respeitosa de opiniões, um dos aspectos básicos da democracia, fundamenta-se na coexistência de pensamentos contrários, o que enriquece o debate político.

 

     O mesmo se aplica ao conceito panfletário. O quê significa? Para quem? De acordo com que critérios? Comparado com quê ou com quem?   É desta forma que, libertando-nos das armadilhas da linguagem, principalmente das palavras abstratas, poderemos alcançar uma maior certeza de estarmos entendendo – e sendo entendidos por – nossos interlocutores. Por sinal, a estes também voltamos a convidar para que expressem no semanário seus pontos de vista discordantes.

 

     É bom lembrar que num editorial anterior (A que vem A Confraria), esclarecemos que um dos nossos propósitos era o de criar um canal alternativo à da chamada grande mídia ( impressa e eletrônica que, de há muito, já foi cooptada e tornada sócia dos governos de turno) e conseqüentemente contribuindo para tornar a aldeia global mais solidária e menos obscena. Sem qualquer pretensão de nos tornarmos exclusivos donos da verdade.

 

     Diferente, porém, é negar a realidade, é distorcer os fatos, substituindo-os por crenças dogmáticas e limitadoras, é trocar a crítica por agressões pessoais. Ora, quem mudou – em tempo recorde e para muito pior – foi o companheiro Presidente (e grande parte da sua entourage). Não o admiramos, não o apoiamos, não votamos e fomos derrotados três vezes para vê-lo praticar as mesmas felonias cometidas por Sarney e pelos dois Fernandos. Não lhe demos uma votação consagradora (não foram os governadores, deputados ou senadores que o fizeram, é crucial que se enfatize) para manter a política ditada pelo FMI e pelo Banco Mundial, para esmagar ainda mais a classe média, os trabalhadores, os aposentados e pensionistas. Justamente para renegar todos os seus compromissos de campanha, que ora chama de bravatas de oposição. Para querer ocultar, por ação e omissão, os esqueletos até agora guardados no armário do governo FHC, de quem parece se ter tornado o mais recente amigo de infância. Se não sabia da “herança maldita” do governo anterior, isto se chama despreparo e incompetência. E se sabia e não a denuncia, isto se chama cumplicidade.

 

     Aos nefelibatas que confundem a crítica civilizada e democrática com ofensas pessoais, uma sugestão: criem a sua própria revista.

 

    

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