AO MIRANTE NELSON

 Poeira de estrelas ou apolicalipse now

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Nelson Marins

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“Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolada...a morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com a humanidade e, portanto, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne, apud  Xenïa Antunes)

 

   O cogumelo apocalíptico provocado pelo ignominioso atentado do fatídico 11 de setembro de 2001, e que a muitos lembrou Nagasaki e Hiroshima, toldou não só a visão, como o raciocínio de Fernando Rodrigues (hoje, sei, um reincidente em outras avaliações). Em “Antiamericanismo fora de hora” (Folha de São Paulo, 17-09-), seu estrabismo mental, que espero reversível, explica as origens de um pretenso sentimento antiamericano: “complexo de inferioridade e saudades da senzala”, citando Paulo Francis. Compara a louvável solidariedade americana com a ausência de tais vínculos recíprocos de compaixão e piedade, no Brasil apenas expressos “em épocas de Copa do Mundo”, aduzindo, no dizer de (logo quem?) Roberto Campos, que “há algo errado em um povo cuja maior manifestação de organização espontânea é em torno do Carnaval”.

 

   Prossegue, com maniqueísmo obsessivo-compulsivo, fruto da opacificação do seu  cristalino neuronal, tecendo loas ao projeto bem definido dos USA, cujos cidadãos sabem o que têm para defender, bem diferentes do Brasil, em termos de organização, cidadania e – o acréscimo é meu – de auto-estima. Conclui, apodando de antiamericanistas primários os que não comungam com seu mapa de realidade, exortando-os a se lembrar de que a Guerra do Vietnã há muito houvera terminado.

 

   A poeira de estrelas que turva a visão do  articulista o impede até de vislumbrar o que se passa ao seu redor, na mesma Folha de hoje, no mesmo espaço de Opinião. Após consulta e prescrição de um oftalmologista – e os há inúmeros e competentes no Brasil, dispensando-o dos inconvenientes de extra vilegiatura aos USA -, leia todos os editoriais, veja a charge de Angeli, irrite-se com o texto antiamericano de Vinicius Torres Freire, com a postura equívoca de Boris Fausto, deblatere quanto aos contumazes complexo de inferioridade e nostalgia da senzala de Carlos Heitor Cony.

 

   Escandalize-se com as Frases do timorato Paul Auster e da deputada democrata Bárbara Lee, execrável traidora da Pátria. Se conseguir superar tamanho esforço visual, dirija-se ao Guerra na América, de hoje, regozije-se com as promessas de usar táticas sujas e malvadas da elite bélico-globalizante do primeiro entre os primeiros do Primeiro Mundo (página 2), deleite-se com o boçal ultimato de Washington à “retórica” da América Latina (página 3) ou indigne-se com a análise falaciosa de Robert Fisk (página 10).

 

   Se não lhe trouxer adicional sacrifício óptico, recue às edições da Folha, em que no exato  day after, Jânio de Freitas o afronta com o seu “Zona de guerra”, precedido pelo editorial “Guerra na América”, e do ignóbil  “A terceira guerra”, de Cony. Nauseie-se com o texto piegas de Sebastião Salgado, “Quando se vê a morte através da lente”. Mas não permita, jamais,  que a atual miopia o impeça de compungir-se com os atônitos olhares de Bush, Arafat e Chirac, e, por Deus, não reprima seus nobres sentimentos de compaixão – pois  sei que os tem – e conceda-lhes a graça de que eles lhe estraçalhem a alma, ao se reconhecer na foto pungente da elegante e jovem senhora, envolta em patibular bruma de enxofre, que  segundo Salgado, o remeteu aos excluídos escravos das minas da Indonésia. Enxofre, cujo acre odor, pergunto, também não evoca o de todos os infernos?

 

   Usufrua, nem que seja por um átimo, a recuperada acuidade visual, e vire a página. Não são igualmente lancinantes a expressão, o olhar da criança palestina em Gaza, portando nas pequeninas mãos a sua solidariedade, sob forma de cartaz (em inglês, em inglês, meu Deus!): “Podemos sentir sua dor. Nós também somos vítimas!!!” ? Com três pontos de exclamação, como se suficientes fossem  para traduzir tamanha perplexidade! (Folha, Guerra na América, 15-09-01, páginas 16 e 15). Reencontre-se com sua lucidez no seu “Uma mola comprimida”, ainda no abominável day after. Em respeito a si mesmo e aos seus vários admiradores, entre os quais me situo, não peça para que o esqueçam, como o fez um assumido ditador pátrio, nem muito menos persuada-nos a esquecer o que escreveu, como fê-lo outro ditador apátrida, travestido de democrata.

 

   Alcance, finalmente, a Folha de 16-09-01, deixando seus olhos repousarem em nova charge de Angeli, relendo, sem retirar do contexto e, portanto distorcê-las, as palavras de Clóvis Rossi. Ausculte o editorial Marcha insensata, ouça Eliane Cantanhede, sua condômina de espaço, em “Todos por um: os EUA”, sinta Cony em “Momentos de história”, detenha-se nas Frases, observando as de Abdulla e de Cláudio Cordone e o sinistro contraponto das de George Mad Max W. Bush. Despeça-se de Jânio de Freitas – ainda há tempo, embora não tanto que me tranqüilize – em seu “Um mundo de guerras”. E, por favor, não se esqueça: reencontre, mais que convalescente - redimido - de recente surto de insensatez, Josias de Souza, em seu antológico “Antiamericanismo delinqüente produz pró-americanismo irresponsável”. E isto, acima de tudo: não deixe que sua fugaz ambliopia o induza a cometer  mortal pecado de suicídio ético-emocional, deixando passar ao largo o analecto do Especial da Folha, onde o senhor ainda escreve e pode formar e deformar opiniões – “10 Focos de tensão”! E se tempo, visão e ânimo lhe sobrarem, sinta “A hora do medo”, de Mauro Santayana, que dignifica a classe com sua pena erudita e patriótica,  com seu texto brilhante, independente e humanista (Correio Braziliense, 12-09-01). Visite, igualmente Mino Carta, cujo texto, postura e coragem privilegiam e iluminam a imprensa brasileira. Leia Carta Capital, de 19-09-01, que reúne o pensamento de antiamericanistas primários – no seu alucinado, e felizmente transitório ponto de vista - , como Noam Chomsky, Michael Clarke, Doug Henwood, William Greider e Darc Costa, entre tantos e tantos outros.

 

   Pelo respeito que lhe dedico há muito, não vou deixá-lo sem  antes responder às suas   iniciais invectivas. Minha lembrança primeira de uma demonstração explícita do espontâneo espírito da solidariedade brasileira, vivi-a e dela fui cúmplice, ainda de calças curtas, durante a Segunda Guerra Mundial, contribuindo para aumentar metafóricas pirâmides de alumínio, de borracha e de outros materiais que pudessem reverter em benefício dos bravos da FEB, da FAB e da Marinha. E o mesmo aconteceu ao se anunciar o findar da, como todas, infame guerra. E, mais uma vez, ao recebermos de braços e coração abertos, os nossos pracinhas, manifestou-se o imenso sentimento (Perdôo-lhe, reticente,  lapso de memória tão imperdoável, porque embora à época fosse o senhor apenas um  gentil e afetuoso pensamento na cabeça dos seus pais, não há que se ignorar a história-pátria. Não perdôo, embora compreenda, a amnésia seletiva de Roberto Campos, o seu mentor de hoje).

 

   Sem falar em similares  manifestações, outras que não futebolísticas ou carnavalescas, ambas legítimas e das poucas capazes de massagear o atual e estuprado ego do povo brasileiro, lembro-me das enchentes do Rio e de outras cidades, do Congresso Eucarístico, das visitas do Papa em plena ditadura militar, do enterro de Juscelino, da inolvidável campanha das Diretas Já – independente das traições covardes e tautológicas da assim chamada elite dirigente; do buzinaço da Brasília sitiada - o amarelo das roupas enfrentando o rebenque de um general paranóico na Esplanada dos Ministérios -, da agonia e morte de Tancredo; das multidões vestidas de luto, respondendo altaneiras, ao desafio desvairado de um presidente de personalidade fronteiriça que, guindado ao cargo pelo sempiterno Sistema, abriu caminho para a privatização do Brasil – que hoje se completa – e, igualmente, para a inserção do País na pole position da corrupção em escala industrial, da banalização da violência, da miséria e da obscena concentração de renda – para gáudio dos banqueiros de sempre, dos especuladores de sempre, dos sonegadores de sempre, dos poderosos de sempre, e para sempre apátridas. Dos caras-pintadas nas ruas, catalisando o impeachment. Das trágicas mortes de Senna e de Covas... Responda-me, nobre escriba, como não há solidariedade no Brasil? Causa-me mossa e preocupa-me sua desmemória para recentes fatos.

 

   A exegese de Roberto Campos sobre a sociedade brasileira induz-me a inverter a polaridade da reflexão. Há algo errado em um povo onde, numa escalada preocupante, menininhos metralham coleguinhas e professores como forma de lazer. Há algo errado em um povo em que cidadãos praticam o tiro ao pombo tendo por alvo outros cidadãos. Há algo errado em um povo que dizimou seus índios e que cultua como herói um facínora como o general Custer, e os mitos do Super Homem e da Mulher Maravilha. E que esquartejou o México – tão longe de Deus, tão perto dos USA – com entusiasmo de causar inveja a Jack, o Estripador. Há algo errado em um povo que possui a maior população carcerária do mundo - negros e hispanos em mor parte, of course. Há, evidentemente, algo errado em um povo que não hesitou em fazer pousar em duas cidades civis – Nagasaki e Hiroshima, mon amour – dois artefatos atômicos, não obstante já estar o Japão agonizante, diagnosticada a morte cerebral.

 

   Há, obviamente, algo errado em um povo que, sem pedir licença a quem quer que seja, invade a Coréia do Norte – e aí se esquece que foi nosso herói, nosso modelo, nosso líder natural, na suja e malvada, como todas, guerra contra o nazi-fascismo – e, tomando gosto e perdendo a cerimônia, invade Cuba (pequenas vergonhas, diria Marcos de Vasconcelos, com o vexame da baía dos Porcos), o Panamá, a Nicarágua, esmaga o Vietnã (grande  vergonha, a deprimente e humilhante volta para casa), vinga-se no Afeganistão e devasta o Iraque.

   Que país é este, perguntaria Francelino, que em escala mundial, financia ditadores e arma o braço de terroristas dos mais diversos matizes - e depois os descarta?

 

   Perdido irreversivelmente o pundonor, há algo errado em um povo que sodomiza outros povos no Oriente Médio, que os estupram no Leste Europeu, que os violentam na América Latina, usando a dialética da Novilíngua, onde Guerra é Paz, Mentira é Verdade, Ódio é Amor, Ignorância é Força, Liberdade é Escravidão, perturbando o sono eterno de Orwell. 

 

   Que não se comove com a desintegração da África, avocando os divinos direitos da propriedade intelectual. Farsantes, covardes, cínicos, cogumelos, bufões prepotentes e arrogantes! (Uma lástima, que ainda não se tenha criado o ponto de enojação). O que pensar de um povo, cujas Forças Armadas bombardeiam o palácio residencial de Kadafi, matam sua filha, um bebê de seis meses, e que não vai às ruas protestar contra esse atentado lesa-humanidade, e permanece olimpicamente indiferente?

 

   Há algo errado, certamente, em um povo que fuzila dois Presidentes da República, mata o irmão de um deles – Secretário de Justiça, e candidato natural à Presidência -  e que tenta assassinar um terceiro. Há algo errado, realmente, em um povo que é o maior consumidor mundial de tóxicos, que robotiza a sua própria gente, marcando a ferro e fogo com o estigma de perdedores as mentes dos que não conseguem (ou não se interessam em) alcançar os ícones do sucesso, transduzidos pelo acúmulo superlativo dos cifrões e pelos quinze minutos de fama, de Andy Warholl.

 

   Que povo é esse,  que teatro do absurdo é esse, que lógica cartesiana é essa, em que heróis da guerra do Golfo explodem iraquianos, são  condecorados, explodem Oklahoma e são oficialmente assassinados nas câmaras de gás? E isso tudo numa alucinada e contínua sístole, sem direito à mínima pausa diastólica. Parem o mundo, faço minhas as palavras de Millor, deixem-me saltar!

 

   Há algo errado em um povo, cujo sociopata-mor se apresta em destruir o mundo, antecipando-se à entropia, fazendo uso escatológico do protocolo de Kyoto, e com sutileza do cio dos rinocerontes, dá o recado viril sobre a internacionalização da Amazônia.

 

   Há algo errado em um povo, certamente, em que o principal mandatário, ao invés de possuir um currículo, é proprietário de invulgar folha-corrida, que vence uma eleição com minoria dos votos populares (e do Colégio Eleitoral, quem sabe?) fazendo morrer de inveja políticos abaixo do Rio Grande. Que com a sua ectomorfia facial parece desmentir a sabedoria popular expressa no mote “Quem vê cara, não vê coração” (nem massa encefálica...). Que no Dia Mundial da Vergonha, entregou-se, com permanente expressão de patética perplexidade frente à vida que o caracteriza, a peripatéticas, compulsivo-obsessivas e clônicas vilegiaturas. E, de delícia de chargistas e humoristas, se transforma, já no day after, em líder inconteste na sua missão de explodir a já tão superlativamente seviciada Gaia.

 

   É mais do que evidente de que há algo errado em um povo em que um toque terno, um gesto de carinho, é - mesmo entre infantes - ante-sala de processo por assédio sexual. E que só os admite publicamente nas hediondas catástrofes. E nos inomináveis cataclismos da Natureza, que – como ofendida resposta desta – tanto tem contribuído, na insânia permissiva, para catalisar.

 

   Que Nação esquizofrênica é essa que contrapõe o criminoso  e autofágico fundamentalismo liberal ao canibalesco e distorcido fundamentalismo islâmico, tragicamente simbolizada pela dicotomia do Psicopata Americano x Beleza Americana? Que barbariza populações civis de incontáveis países, transforma seus próprios jovens em buchas de canhão e ensaia canhestro mea culpa em  Apocalypse Now e n’O Franco Atirador, numa psicótica distorção de patriotismo? 

 

   Que país é esse, que nação é essa, que povo é esse, que nos afrontam com o espetáculo sinistro-patético de discursos de justiça e liberdade infinitas? Irmãos em alma ou  igualmente covardes terroristas sem face - como os da corja demente e asquerosa de todos os atentados?  Discurso tartamudeado por ventríloquo tão indigente e  primata, olhos vazios de fuinha demente, semi-sorriso de figurante canastrão de filmes B, e que é histericamente aplaudido pela psicótica turba - o sorriso alvar e cúmplice do britânico embaixador ad-hoc, os orgasmos patrióticos mal contidos do apenas condicionalmente tolerado Powell,  a incipiente e distraída Hillary,  o sacro-sentar e levantar da negra missa dos eternos acólitos. Com a criminosa  cumplicidade da mídia, que de há muito deixou de ser cooptada – é sócia e, ao mesmo tempo, propriedade do Sistema. Mídia, que já começou o brain washing, e que agride os mais elevados valores humanitários, ao transformar em feérico e rastaqüera show a incomensurável dor de todos que fomos atingidos pelas abomináveis brutalidades desse sistema que, globalizado desde as suas origens, há muito se tornou globalizante.   

 

   Delenda Carthago!  Esta é a  Amérika!  Paradigma globalizado e globalizante de todas as Nomenklaturas!

 

   Mas esta não é a América dos Pilgrims do Mayflower, de Abraham Lincoln, de Jefferson, de Wilson. Esta não é a América de Arthur Schlesinger Jr, de Noam Chomsky, de Susan Sontag, de Ralph Nader. Muito menos é a América de Waldo Emerson,  de Keats, de James Thurber, de Whitmann, o poeta da democracia, de Robert Frost. Esta não é a América de Thoreau, de Martin Luther King, de Malcolm X, de Sabin, de Salk, de Galbraith, de  Sagan.  

 

   Esta não é a América de Steinbeck, de Gore Vidal, de Salinger, de Tenesse Williams, de Hemingway, de Faulkner, de Pearl S. Buck. Esta não é a América dos artistas, gênios e visionários. Dos movimentos das gerações beatnick, de Berkeley, de Allen Ginsberg – o seu poeta síntese; do faça amor, não faça a guerra, dos hippies , do rock’n roll.  

 

   Esta não é a América dos Gershwin, de Cole Porter,  de Irving Berling, das big bands – Glenn Miller e Moon light serenade, um dos hinos nacionais da América e do mundo que vale a pena – de Duke Ellington, Benny Goodman e Harry James; da saga do jazz – de New Orleans-Chicago-Harlem; de Charlie Parker, de Billie Holliday.  De Ray Charles, de Stevie Wonder, de Louis Armstrong.

 

   Esta não é, nem de longe, a América de Woody Allen, de, entre tantos, Stardust, de Manhattan, talvez sua mais explícita declaração de amor e paixão desvairada à ilha e à cidade de N.Y., rival de cada um de nós que com ele disputamos a paixão e o amor à cidade e à ilha; nós, homens sem fronteiras, cidadãos da Humanidade.

 

   Esta não é a América de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Kübrick, dos épicos de John Ford, dos cineastas, atores e produtores de From hear to eternity, que ali retrataram a nefanda ação de que fomos todos vítimas no crepuscular delírio de Pearl Harbour;  de Fred Astaire, de Gene Kelly, de Paul Newmann, de Jane Fonda, dos irmãos Marx, de Burt Lancaster, de Sinatra – seu talento dando amplo troco ao seu  primário reacionarismo. Esta não é a América dos espetáculos da Broadway, do lusco-fusco dos sábados em Times Square, onde dançamos e cantamos tantas vezes, contagiados pela irresistível gospel; da Big Apple descendo, sincopada, na última noite dos anos, sob o coro decrescente da multidão, ao som de New York, New York nas ruas e da Valsa da Despedida nos salões.

 

   Esta não é a América de Eugene O’Neill, de Georgia O’Keefe, de Frank Stella, Johns Gasper,  Mary Cassat, Henry Moore, Andy Warholl. Esta não é a América, que conquistou cerca da metade de todos os prêmios Nobel até hoje, e que, metaforicamente, dividiu o da Paz, de ’89, entre o cardiologista norte-americano Bernard Lown, e o seu colega de especialidade, o soviético Yevgeny Chazov, no auge da Guerra Fria. Não é a América, patrimônio da Humanidade. Esta não é, positivamente, a América de William Osler e de Paul White.

 

   Esta não é a América da emocionante californiana Bárbara Lee que,  com sua coragem e sanidade, demonstrou que resiste e que persiste ainda na América, vida inteligente em seu Congresso, na sua retumbante vitória de 1 contra 400! God bless AMÉRICA!

 

   Esta não é a América da revolução do Vale do Silício nem a dos feiticeiros da comunicação e dos magos da terapia da Costa Oeste e alhures. Não é a América de Gregory Bateson, de Margareth Mead, de Thimoty Leary, de Aldous Huxley – independentemente onde tenha nascido -, de Fritz Perls, da doce Virginia Satir, de Milton Erickson, de Richard Bandler, de John Grinder, da   compaixão personificada por Robert Dilts, do saudoso Todd Epstein, dos Simontons, de Bernie Siegel e, muito menos, do inesquecível LeShan. Esta não é, igualmente, a América de Naomi Remen, de Michael Lerner, de Dean Ornish, de Linda Sommer, de Candace Pert, de Thony Robbins, do comovente ser humano que se chama Stephen Gilligan. Nem a de Tim Hallbom, de Suzi Smith, de Robert Ornstein, de Elizabeth Kübler-Ross, de Ernest Rossi, de Jeffrey Zeig, de Judith Deloizier, de Leslie Cameron, de Lebeau, de Daniel Golleman e de Bill Moyers. Nem a de Paul Watzlawick e a dos construtivistas de Pallo Alto.

 

   Perdoe-me, caro leitor, tão longa catilinária. Mas não me venha, uma vez mais de borzeguins ao leito, e já refeito – espero – do compreensível trauma, pretender dar-me lições de sapiência, em recente, infeliz e presunçoso post scriptum, tendo a Folha como caixa de ressonância – a qual parece, nesse museu de horrores, ter perdido rota e rumo do seu Conselho Editorial. Aproveite o dia, carpe diem , para em humilde ato de contrição,  dar-se ao direito inerente à condição humana  de se equivocar e depois se redimir.            

 

Desejo-lhe, de coração, pronto restabelecimento óptico-emocional. E, se assim não for possível, sugiro-lhe uma facectomia  ou - pior, muito pior - condene-se eternamente a refocilar nos artigos de Bresser Pereira; aquele, exatamente aquele que emprestou seu nome ao estelionatário plano.

 

   Caluda! Respeite-me! Respeite-nos! Uma parte minha, uma parte de cada ser humano - uma parte sua inclusive – também morreu.

 

   Requiescat in pace.

 

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