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- Mas
‘glória’ não significa um ‘argumento arrasador’, objetou Alice.
- Quando uso
uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela
significa exatamente aquilo que eu quero que signifique...nem
mais nem menos.
- A questão
– ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras
dizerem coisas diferentes.
- A questão
– replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda.
E só isso.
(Lewis Carrol, Alice no País dos Espelhos).
Humpty
Dumpty, o enrolador, é aquele que usa palavras e frases
gramaticalmente bem estruturadas, porém sem o menor significado.
Usa e abusa de “salada de palavras”, de apontadores de
precisão – palavras que alertam o interlocutor para o perigo
da chegada de comunicação incompleta ou ineficaz. Políticos,
economistas, advogados e médicos são mestres nesta arte.
Para
defender-se dos Humpties Dumpties
que o aguardam em cada esquina
ou para não transformar-se num deles, aprenda a desafiá-los com
as perguntinhas do metamodelo de linguagem, modelo
que usa as palavras de um modo específico a fim de esclarecer o
seu significado.
Artigo:
Ainda bem que Lula mudou,
de
Kennedy Alencar
Folha de São Paulo, 23/05/2003
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Algumas
meias-verdades se cristalizaram na mídia de tal maneira que o
seu questionamento é confundido com governismo ou excesso de boa
vontade em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É de
um simplismo político incrível o argumento de que os radicais do
PT estão certos porque continuam onde sempre estiveram e que
Lula está errado porque não defende mais o que defendia.
Em política, coerência nem sempre é uma qualidade. Pode ser um
defeito gravíssimo. Lula e o PT foram acusados durante anos de
estreiteza política, de não estarem preparados para lidar com o
exercício do poder, de defenderem teses maravilhosas mas
inaplicáveis na prática.
Quando Lula e a maioria do partido decidiram fazer alianças e se
abrir politicamente, viraram os reis da incoerência. O desejável
é que tivessem chegado ao poder tão sectários quanto antes. Para
o bem do país, isso não aconteceu.
Um dos pilares da reforma da Previdência, a contribuição
previdenciária de 11% do funcionários públicos inativos virou um
emblema dessa suposta incoerência.
O argumento é o seguinte: Lula e cia. eram contra essa cobrança.
Como podem ser a favor agora?
Lula é a favor agora porque fez um acordo político com os
governadores para tentar aprovar a reforma da Previdência no
Congresso. A cobrança interessa aos Estados e é insignificante
para a União. Lula a encampou para atender os Estados. Seu
ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, foi contra a medida o
quanto pôde.
Como sozinho o PT de Lula não tem os votos necessários para
aprovar nem o mais simples projeto de lei, a cobrança dos
inativos virou moeda política de troca para que os governadores
ajudem o governo a aprovar a reforma da Previdência como um
todo.
O que deveria fazer Lula? Insistir na manutenção da sua
coerência, para não ser cobrado pelos radicais e pela mídia, ou
bancar um acordo com outras forças políticas?
A resposta parece óbvia, a não ser que valha o seguinte
raciocínio: "Fico com minha coerência para andar de cabeça
erguida, mas que se estrepe o país e a realidade política". Essa
"realidade política" é como as coisas funcionam. Fora dela, fica
fácil posar de dono da verdade e de pessoa mais coerente do
mundo.
Ainda bem que Lula e o PT mudaram.
Ainda bem
que Lula mudou:
Ainda bem para quem?
Na opinião de quem? Baseado em
que critérios? Mudou o quê e como?
Em
política, coerência nem sempre é uma qualidade. Pode ser um
defeito gravíssimo.
Segundo quem: Lampedusa e
seu cinismo ou os que acreditam que Política é a transformação
de um sonho, de um projeto em realidade, através do trabalho e
do diálogo honesto? Quem acusou Lula e o PT de estreiteza
política, de não estarem preparados para o exercício do poder,
de defenderem teses maravilhosas mas inaplicáveis na prática: os
banqueiros, os corruptos e corruptores, o FMI, os eleitores de
FHC, o G-8 ou as vítimas do Consenso de Washington, da
globalização e do pensamento único? Como sabe exatamente o
insigne Humpty Dumpty da semana que teses maravilhosas são
inaplicáveis na prática? (Por sinal, o
neoLula
e a
cópula
do PT, como o
caro Humpty, já declararam que aquelas teses maravilhosas
chamam-se
bravatas
de oposição). Nunca ouviram
falar de Galileu Galilei, de Santos Dumont, de Martin Luther
King, de Gandhi?
Quando Lula e a maioria do partido decidiram fazer alianças e se
abrir politicamente, viraram os reis da incoerência:
Alianças com quem, com os ACMs, os Sarneys, os Gedéis, os
Rorizes - o que mais representa o atraso, o "dando é que se
recebe" -, ou de políticos como Pedro Simon ou do próprio José
de Alencar, muito mais próximos do ideário ético e democrático
do partido? O Humpty, matreiramente, (nos) confunde com os seus
significados, de flexibilidade
e
incoerência.
Uma coisa é
uma coisa, outra coisa é outra coisa. Cada ser humano, cada
político, cada partido tem todo o direito de mudar não só de
idéias, de crenças, como também de ideais e ideologia. Isto
chama-se flexibilidade. Aos políticos e partidos é recomendável
que o façam
antes
de eleições.
Isto chama-se coerência, congruência e honestidade. Quando o
fazem depois
das eleições, isto chama-se
incoerência, indecência, demagogia e estelionato eleitoral.
(...) O desejável é que tivessem chegado ao poder tão sectários
quanto antes. Para o bem do país, isto não aconteceu: O
que aconteceria se tivessem chegado ao poder tão sectários
quanto antes? Sectários na opinião de quem? Para o bem de quem
no país, isto não aconteceu? Como Humpty Kennedy Dumpty Alencar
sabe especificamente que, para o bem do país, isto não
aconteceu? E o que significa
isto, especificamente?
Para o bem do país, comparado com que? Com o governo FHC? Com
Davos? Ou com o Fórum de Porto Alegre?
Um
dos pilares da reforma da Previdência, a contribuição
previdenciária de 11% dos funcionários públicos inativos virou
emblema desta suposta
incoerência:
Um dos
pilares na opinião de quem? De um plebiscito, de uma pesquisa do
Data Folha,da maioria dos eleitores de Lula, dos inativos, ou
dos sonegadores, dos grandes devedores, ou dos grandes
saqueadores da Previdência, até hoje impunes? Quem, como, para
que e por que vão reformar a Previdência? Suposta incoerência
para quem? Para os eleitores de José Serra, para o Banco
Mundial, para Baby Bush, para a Folha de São Paulo ou para o
Humpty-articulista?
Lula
é a favor agora por que fez um acordo com os governadores para
tentar aprovar a reforma da Previdência no Congresso. A cobrança
interessa aos Estados e é insignificante para a União:
Mas ele não havia feito um acordo prévio
com os eleitores? Foram os governadores ou os eleitores que o
elegeram? E o elegeram para taxar os inativos e os pensionistas?
Quem votaria em Lula sabendo estas e outras? A cobrança é
insignificante para os inativos e pensionistas?
(...) a cobrança dos inativos virou moeda política de troca para
que os governadores ajudem o governo a aprovar a reforma da
Previdência como um todo:
E a moeda
política de troca com os eleitores, não tem troca nem tem troco
os milhões de votos recebidos, muitos dos quais nem petistas
são, quanto mais radicais e xiitas? O que significa exatamente a
reforma da Previdência como um todo? Tirar do armário os
esqueletos escandalosos do governo FHC, vários dos quais
denunciados por Itamar Franco, abrir a caixa preta dos
Executivos, Legislativos e Judiciários federais, estaduais e
municipais, do Banco Central? Mandar pagar os precatórios
alimentares? Ou taxar inativos e pensionistas, e extorquir ainda
mais a classe média?
O
que deveria fazer Lula? Insistir na manutenção da sua coerência,
para não ser cobrado pelos radicais e pela mídia, ou bancar um
acordo com outras forças políticas?
: Não
só
de radicais e da mídia vêm as cobranças, mas sim da maioria dos
eleitores por ele manipulados. Que espécie de acordo? Com quais
outras forças políticas? Como sabe especificamente nosso Humpty
Dumpty que Lula seria cobrado se mantivesse a coerência?
A
resposta parece óbvia, a não ser que valha o seguinte
raciocínio: "Fico com minha coerência para andar de cabeça
erguida, mas que se estrepe o país e a realidade política":
A resposta
parece óbvia para quem? De acordo com que critérios? Para quem
não se importa em baixar a cabeça, curvar a coluna e mostrar os
fundilhos? Para os adeptos da lei de Gerson? Para quem não se
importa em dar uso escatológico à sua biografia, e depois
jogá-la na sentina? Como sabe exatamente o caro Humpty que o
país e a realidade política se estrepariam?
Essa
"realidade política" é como as coisas funcionam. Fora dela, fica
fácil posar como dono da verdade e de pessoa mais coerente do
mundo:
O que
significa "realidade política" (com ou sem aspas)? Como sabe
especificamente que é assim que as coisas funcionam? Para quem,
para os maniqueístas? Assim, como? Que coisas exatamente? Como
funcionam? Mantendo o status quo? Continuando a esmagar o
povo brasileiro em nome do Brasil? Deixando as raposas como
fiéis depositários do galinheiro? Quem está posando de dono da
verdade? E de acordo com quem, Humpty Dumpty?
Ainda bem que Lula e o PT mudaram:
Ainda bem para quem, Humpty Dumpty?
próximo:
A ver navios e Ministro do Trabalho não é
paliativo
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