HUMPTY DUMPTY

 

AINDA BEM QUE LULA MUDOU                                     Página principal  

 

 

Nelson Marins

 

 
   

 

   

 

- Mas ‘glória’ não significa  um ‘argumento arrasador’, objetou Alice.

- Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.

- A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.

- A  questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda.

E só isso. (Lewis Carrol, Alice no País dos Espelhos).

 

Humpty Dumpty, o enrolador, é aquele que usa palavras e frases gramaticalmente bem estruturadas, porém sem o menor significado. Usa e abusa de “salada de palavras”, de apontadores de precisão – palavras que alertam o interlocutor para o perigo da chegada de comunicação incompleta ou ineficaz. Políticos, economistas, advogados e médicos são mestres nesta arte.

Para defender-se dos Humpties Dumpties que o aguardam em cada esquina ou para não transformar-se num deles, aprenda a desafiá-los com as  perguntinhas do metamodelo de linguagem, modelo que usa as palavras de um modo específico a fim de esclarecer o seu significado.

 

Artigo: Ainda bem que Lula mudou, de Kennedy Alencar

Folha de São Paulo, 23/05/2003

 

Algumas meias-verdades se cristalizaram na mídia de tal maneira que o seu questionamento é confundido com governismo ou excesso de boa vontade em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É de um simplismo político incrível o argumento de que os radicais do PT estão certos porque continuam onde sempre estiveram e que Lula está errado porque não defende mais o que defendia.
Em política, coerência nem sempre é uma qualidade. Pode ser um defeito gravíssimo. Lula e o PT foram acusados durante anos de estreiteza política, de não estarem preparados para lidar com o exercício do poder, de defenderem teses maravilhosas mas inaplicáveis na prática.
Quando Lula e a maioria do partido decidiram fazer alianças e se abrir politicamente, viraram os reis da incoerência. O desejável é que tivessem chegado ao poder tão sectários quanto antes. Para o bem do país, isso não aconteceu.
Um dos pilares da reforma da Previdência, a contribuição previdenciária de 11% do funcionários públicos inativos virou um emblema dessa suposta incoerência.
O argumento é o seguinte: Lula e cia. eram contra essa cobrança. Como podem ser a favor agora?
Lula é a favor agora porque fez um acordo político com os governadores para tentar aprovar a reforma da Previdência no Congresso. A cobrança interessa aos Estados e é insignificante para a União. Lula a encampou para atender os Estados. Seu ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, foi contra a medida o quanto pôde.
Como sozinho o PT de Lula não tem os votos necessários para aprovar nem o mais simples projeto de lei, a cobrança dos inativos virou moeda política de troca para que os governadores ajudem o governo a aprovar a reforma da Previdência como um todo.
O que deveria fazer Lula? Insistir na manutenção da sua coerência, para não ser cobrado pelos radicais e pela mídia, ou bancar um acordo com outras forças políticas?
A resposta parece óbvia, a não ser que valha o seguinte raciocínio: "Fico com minha coerência para andar de cabeça erguida, mas que se estrepe o país e a realidade política". Essa "realidade política" é como as coisas funcionam. Fora dela, fica fácil posar de dono da verdade e de pessoa mais coerente do mundo.
Ainda bem que Lula e o PT mudaram.

 

 

O HUMPTY DUMPTY

 

Ainda bem que Lula mudou: Ainda bem para quem? Na opinião de quem? Baseado em que critérios? Mudou o quê e como?

 

Em política, coerência nem sempre é uma qualidade. Pode ser um defeito gravíssimo.  Segundo quem: Lampedusa e seu cinismo ou os que acreditam que Política é a transformação de um sonho, de um projeto em realidade, através do trabalho e do diálogo honesto? Quem acusou Lula e o PT de estreiteza política, de não estarem preparados para o exercício do poder, de defenderem teses maravilhosas mas inaplicáveis na prática: os banqueiros, os corruptos e corruptores, o FMI, os eleitores de FHC, o G-8 ou as vítimas do Consenso de Washington, da globalização e do pensamento único? Como sabe exatamente o insigne Humpty Dumpty da semana que teses maravilhosas são inaplicáveis na prática? (Por sinal, o neoLula e a cópula do PT, como o caro Humpty, já declararam que aquelas teses maravilhosas chamam-se bravatas de oposição). Nunca ouviram falar de Galileu Galilei, de Santos Dumont, de Martin Luther King, de Gandhi?

 

Quando Lula e a maioria do partido decidiram fazer alianças e se abrir politicamente, viraram os reis da incoerência: Alianças com quem, com os ACMs, os Sarneys, os Gedéis, os Rorizes - o que mais representa o atraso, o "dando é que se recebe" -, ou de políticos como Pedro Simon ou do próprio José de Alencar, muito mais próximos do ideário ético e democrático do partido? O Humpty, matreiramente, (nos) confunde com os seus significados, de flexibilidade e incoerência. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Cada ser humano, cada político, cada partido tem todo o direito de mudar não só de idéias, de crenças, como também de ideais e ideologia. Isto chama-se flexibilidade. Aos políticos e partidos é recomendável que o façam antes de eleições. Isto chama-se coerência, congruência e honestidade. Quando o fazem depois das eleições, isto chama-se incoerência, indecência, demagogia e estelionato eleitoral.

 

(...) O desejável é que tivessem chegado ao poder tão sectários quanto antes. Para o bem do país, isto não aconteceu: O que aconteceria se tivessem chegado ao poder tão sectários quanto antes? Sectários na opinião de quem? Para o bem de quem no país, isto não aconteceu? Como Humpty Kennedy Dumpty Alencar sabe especificamente que, para o bem do país, isto não aconteceu? E o que significa isto, especificamente? Para o bem do país, comparado com que? Com o governo FHC? Com Davos? Ou com o Fórum de Porto Alegre?

 

Um dos pilares da reforma da Previdência, a contribuição previdenciária de 11% dos funcionários públicos inativos virou emblema desta suposta incoerência: Um dos pilares na opinião de quem? De um plebiscito, de uma pesquisa do Data Folha,da maioria dos eleitores de Lula, dos inativos, ou dos sonegadores, dos grandes devedores, ou dos grandes saqueadores da Previdência, até hoje impunes? Quem, como, para que e por que vão reformar a Previdência? Suposta incoerência para quem? Para os eleitores de José Serra, para o Banco Mundial, para Baby Bush, para a Folha de São Paulo ou para o Humpty-articulista?

 

Lula é a favor agora por que fez um acordo com os governadores para tentar aprovar a reforma da Previdência no Congresso. A cobrança interessa aos Estados e é insignificante para a União: Mas ele não havia feito um acordo prévio com os eleitores? Foram os governadores ou os eleitores que o elegeram? E o elegeram para taxar os inativos e os pensionistas? Quem votaria em Lula sabendo estas e outras? A cobrança é insignificante para os inativos e pensionistas?

 

(...) a cobrança dos inativos virou moeda política de troca para que os governadores ajudem o governo a aprovar a reforma da Previdência como um todo: E a moeda política de troca com os eleitores, não tem troca nem tem troco os milhões de votos recebidos, muitos dos quais nem petistas são, quanto mais radicais e xiitas? O que significa exatamente a reforma da Previdência como um todo? Tirar do armário os esqueletos escandalosos do governo FHC, vários dos quais denunciados por Itamar Franco, abrir a caixa preta dos Executivos, Legislativos e Judiciários federais, estaduais e municipais, do Banco Central? Mandar pagar os precatórios alimentares? Ou taxar inativos e pensionistas, e extorquir ainda mais a classe média?

 

O que deveria fazer Lula? Insistir na manutenção da sua coerência, para não ser cobrado pelos radicais e pela mídia, ou bancar um acordo com outras forças políticas? : Não de radicais e da mídia vêm as cobranças, mas sim da maioria dos eleitores por ele manipulados. Que espécie de acordo? Com quais outras forças políticas? Como sabe especificamente nosso Humpty Dumpty que Lula seria cobrado se mantivesse a coerência?

 

A resposta parece óbvia, a não ser que valha o seguinte raciocínio: "Fico com minha coerência para andar de cabeça erguida, mas que se estrepe o país e a realidade política": A resposta parece óbvia para quem? De acordo com que critérios? Para quem não se importa em baixar a cabeça, curvar a coluna e mostrar os fundilhos? Para os adeptos da lei de Gerson? Para quem não se importa em dar uso escatológico à sua biografia, e depois jogá-la na sentina? Como sabe exatamente o caro Humpty que o país e a realidade política se estrepariam?

 

Essa "realidade política" é como as coisas funcionam. Fora dela, fica fácil posar como dono da verdade e de pessoa mais coerente do mundo: O que significa "realidade política" (com ou sem aspas)? Como sabe especificamente que é assim que as coisas funcionam? Para quem, para os maniqueístas? Assim, como? Que coisas exatamente? Como funcionam? Mantendo o status quo? Continuando a esmagar o povo brasileiro em nome do Brasil? Deixando as raposas como fiéis depositários do galinheiro? Quem está posando de dono da verdade? E de acordo com quem, Humpty Dumpty?

 

Ainda bem que Lula e o PT mudaram: Ainda bem para quem, Humpty Dumpty?    

 

 

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