HUMPTY DUMPTY

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               Nelson Marins

  

 

 

 

- Mas ‘glória’ não significa  um ‘argumento arrasador’, objetou Alice.

- Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.

- A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.

- A  questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda.

E só isso. (Lewis Carrol, Alice no País dos Espelhos).

 

Humpty Dumpty, o enrolador, é aquele que usa palavras e frases gramaticalmente bem estruturadas, porém sem o menor significado. Usa e abusa de “salada de palavras”, de apontadores de precisão – palavras que alertam o interlocutor para o perigo da chegada de comunicação incompleta ou ineficaz. Políticos, economistas, advogados e médicos são mestres nesta arte.

Para defender-se dos Humpties Dumpties que o aguardam em cada esquina ou para não transformar-se num deles, aprenda a desafiá-los com as  perguntinhas do metamodelo de linguagem, modelo que usa as palavras de um modo específico a fim de esclarecer o seu significado.

A VER NAVIOS

 

Em discurso no porto de Itajaí, durante o lançamento do navio Metaltanque VI, o presidente Lula declarou: “Certos critérios de contingenciamento recomendados por organismos internacionais inviabilizam a própria consistência macroeconômica que tanto se persegue. Por isso vamos percorrer novos rumos em estreita parceria entre o Estado e a iniciativa privada”.

 

Quais critérios de contingenciamento, exatamente, inviabilizam a consistência macroeconômica? O abusivo superávit fiscal, superior ao acordado pelo governo FHC? Os juros escorchantes da dívida?

Quem está contingenciando o quê e como isto está sendo feito? O presidente da República, o ministro Pallocci, os diretores do Banco Central? Em detrimento da área social, da educação, da saúde, da criação de empregos? Com a reforma da previdência, extorquindo aposentados e pensionistas?

Que organismos internacionais recomendaram dito contingenciamento? O FMI, o Banco Mundial ou a Anistia Internacional? E o que impede o governo brasileiro de ignorar tais recomendações? O que poderia acontecer se elas fossem ignoradas?

O que significa, especificamente, consistência macroeconômica?

 

Nenhum de nós precisaria fazer discursos, mas ficar contemplando alguns minutos o navio para nos darmos conta do potencial que nosso país tem e não deveria estar na situação que está”.

 

Se não precisava fazer discursos, então por que é que fez? Em que contemplar um navio alguns minutos equivale a  se dar conta do potencial do nosso país? Na opinião de quem? De acordo com quais critérios? Comparado com o potencial de que países?

Por que o país está na situação que está e que não deveria estar? Houve alguma mudança no modelo econômico? Vai haver? Quando? Como?

 

Bom mesmo foi o discurso da companheira Marisa, que em vinte segundos deu o seu recado, deixando de lado o texto preparado pelos Humpties Dumpties oficiais.

 

 

MINISTRO DO TRABALHO NÃO É PALIATIVO

 

Em entrevista a Marcio Aith (Folha de São Paulo, 27 de julho), o Ministro Jaques Wagner brindou-nos com algumas pérolas:

 

“Adotamos um modelo com a preocupação de não permitir que se desorganizasse a economia completamente, e é óbvio que esse modelo tem dois lados. Para fazermos isso, restringimos o Orçamento e o investimento. E é óbvio que, nesse aspecto, o modelo não contribui”.

 

Homessa! Quem adotou um modelo que restringe o Orçamento e o investimento e que não contribui (para o desenvolvimento)? O ministro Wagner, Palocci, Lula, José Dirceu, ou o FMI? A propósito, quais as características do modelo e como sabe, especificamente, quem o escolheu  que seria o único ou o melhor? Comparado com que outros e segundo quem? A partir de que critérios? Embora seja preferível escolher um modelo do que não escolher nenhum, os responsáveis pela escolha se tornam robôs. Se a escolha só permite dois resultados, eles se encontram num dilema, para isso bastando que a outra “variável” não funcione. Aliás, quem poderia desorganizar completamente a economia? Os eleitores de Lula, que nele votaram acreditando que seu governo mudaria o modelo econômico, ponto inegociável do programa da campanha eleitoral do PT, ou o “mercado”, cujo conceito abstrato oculta especuladores nacionais e d’além mar? Para quem é óbvio que o modelo só tem dois lados e que, nesse aspecto não contribui?

 

“Não, não sou um ministro paliativo. Não foi para isso que vim ao governo...”

 

É possível que o ministro não seja paliativo. Mas com estas argumentações parece que se trata de um ministro genérico ou similar. Ou, talvez, um ministro placebo.

 

 

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