AO MIRANTE NELSON

TAÇA DE CRISTAL

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 Nelson Marins

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Não se precipite, ansioso leitor, em imaginar que abordarei preços, quantidade e qualidade dos cristais presidenciais. Nem tampouco a origem egípcia do algodão dos roupões de diversos portes, adquiridos para os emergentes donos e hóspedes do Poder. Embora me causem espécie o volume dos bombons (serão chocólatras?) e dos líquidos espirituosos (!) no país da fome zero, também me abstenho de maiores comentários. Com habitual competência, já o fizeram mestre Jânio de Freitas e a c xenïa antunes.

 

   O mote em questão está ligado a certas diatribes de um amigo fraterno, uma espécie de alter ego, de grilo falante, que não se conformava com as minhas invectivas ao ex-governador Cristovam Buarque e, posteriormente, ao presidente Lula e à cúpula do PT. Com a agravante de poupar o governador Joaquim Roriz – numa evidente demonstração de revoltante parcialismo, segundo sua óptica.

 

   Aldous Huxley (As Portas da Percepção) já comentava que o ser humano, em virtude das suas restrições neurológicas, sócio-culturais e experiências individuais, freqüentemente acredita que o seu modelo de realidade é a própria realidade externa e que os seus conceitos são fatos. Em outras palavras, se eu afirmo que isto é uma cadeira, que estou sentindo calor ou que meu cão está latindo, estou lidando com fatos, o que não provocará discussões. Agora, se eu afirmo que o meu cão latiu por que Marte encontra-se ascendente na casa de Saturno, a história é outra: trata-se de uma crença. Em suma, fatos são neutros; discutimos crenças. Para que não confundamos fatos com nossas crenças, recorramos à história dos fatos do parágrafo anterior.

 

   Em 1995, os governos do DF e de outros estados foram condenados em última instância a pagar dívidas trabalhistas, salários atrasados, precatórios alimentares. O então governador do DF, Cristovam Buarque – em quem votei – não só se recusou a cumprir uma decisão judicial transitada em julgado, como afirmou à mídia “...que preferia ser preso a pagar aqueles débitos...”. Qual é o nome que se dá a quem afronta uma decisão da Justiça? Rebelde? Indisciplinado? Ou inadimplente, eufemismo de caloteiro? A partir daí, publiquei em diversos veículos o meu protesto, incluindo naqueles epítetos a então deputada distrital Maria José Maninha, uma das suas cúmplices, e que traiu a confiança nela depositada por inúmeros eleitores. Coerente, não?

 

   Na campanha ao governo do DF, em 1998, Joaquim Roriz afirmou publicamente que o seu primeiro compromisso de campanha seria o de saldar os referidos precatórios (curioso e trágico país o nosso, em que os candidatos prometem cumprir a lei a que são obrigados, como se fosse uma benesse...). Mais uma vez, a história se repetiu. Eleito, o governador perpetrou outro estelionato eleitoral, desta vez com o beneplácito do Supremo Tribunal Federal, que de há muito se transmutou em defensor dos interesses imediatos dos Executivos. Continuei a publicar minhas catilinárias. Congruente, não é mesmo?

 

   Comovente a campanha eleitoral de 89 (Lula lá...Sem medo de ser feliz...), levando-nos – Maria José e eu – às lagrimas pela figura do candidato, metáfora de merecimento, seriedade e compromisso com tão estuprado país, derrotado pelo conluio repelente dos donos do dinheiro, do poder e dos meios de comunicação, à frente como sempre a sombra do Dr. Roberto.

 

    A eleição de Lula à Presidência da República foi um dos mais notáveis fatos da história do Brasil, representando verdadeira apoteose na sua simbologia. Um operário sem títulos universitários formais, que conseguiu derrotar as forças políticas e econômicas que desde sempre exploraram, saquearam e venderam o País a preço vil. Mais que tudo: representou a esperança que venceu o medo da mudança ética. Valeu, para nós brasileiros, vivenciarmos tantas frustrações, sofrimentos e angústias. Sua vitória consagradora e comovente, fruto dos nossos votos, a todos nos redimiu.

 

   Já na transição – de maneira envergonhada – e após a posse – de forma escancarada (royalties para Elio Gaspari) – logo, logo o presidente Luiz Inácio da Silva e seus acólitos aliaram-se justamente àquelas forças obscurantistas que historicamente tanto diziam combater, esquecendo-se, sem qualquer pejo, dos companheiros de tantos anos e dos discursos de ontem. Somente na sua cabeça e nas de Dirceus, Genoínos, Mercadantes, Paloffis, Joões Paulos e outros pode prevalecer a convicção de que acreditamos – nós, os mentecaptos – que vieram para mudar este país. Que o digam os servidores públicos ativos, aposentados e pensionistas, vítimas de uma covarde reforma da previdência. Quantos votariam em Luis Inácio sabendo o que não sabiam?

 

    Covardia, Genoíno, não é delatar companheiros da “guerrilha”: as torturas físicas e as execráveis pressões psicológicas transcendem e subvertem quaisquer resquícios de heroísmo. Covardia, José Dirceu, não é mudar rosto e identidade para não ser capturado pela ditadura militar. Covardia, presidente Luiz Inácio da Silva, não é ter suado,  tremido e torcido as mãos no último debate da TV, ante as ameaças de chantagem do candidato Fernando Collor. Covardia é a destruição dos nossos sonhos. Covardia é transformar princípios em “bazófias de campanha”. Covardia, companheiros, é transformarem-se em levógiros Robin Hoods.

 

    Como pode facilmente perceber, leitor atento, todos os personagens citados são iguais e são diferentes.

 

   Joaquim Roriz, desde que descoberto por Sarney, é freqüentador assíduo das páginas policiais e de escândalos. Se eu não respeitasse a liturgia do cargo, diria que é caloteiro, mas como a respeito, afirmo que seja, digamos, inadimplente.Tem um vasto prontuário de ações por racismo, crimes eleitorais, incitação à violência, grilagens de terras e estelionatos eleitorais, além de criar milhares de impostos fraudulentos, sob a forma de taxas (de pânico e prevenção de incêndios, de varandas, de lixo, de iluminação pública etc). Tudo isto, à socapa e à sorrelfa, com a abjeta e, talvez - quem sabe? - lucrativa conivência da Câmara Legislativa.

 

   Os companheiros Cristovam Buarque e Maria José Maninha também  mentiram, praticaram estelionato eleitoral e desobedeceram decisões judiciais.

Já disse o que tinha a dizer sobre o Presidente Luiz Inácio e a corte do PT.

 

   Ah! Quase ia me esquecendo do título em epígrafe. É uma metáfora, claro. Enquanto Roriz sempre me pareceu um copo de geléia, facilmente descartável e substituível quando quebrado, Lula representava uma taça do mais fino cristal. Daquelas que, como a confiança, uma vez trincadas...

 

Publicado: 25.8.2003

 

 

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