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Não se precipite,
ansioso leitor, em imaginar que abordarei preços, quantidade e
qualidade dos cristais presidenciais. Nem tampouco a origem
egípcia do algodão dos roupões de diversos portes, adquiridos
para os emergentes donos e hóspedes do Poder. Embora me causem
espécie o volume dos bombons (serão chocólatras?) e dos líquidos
espirituosos (!) no país da fome zero, também me abstenho
de maiores comentários. Com habitual competência, já o fizeram
mestre Jânio de Freitas e a c xenïa antunes.
O mote em questão está
ligado a certas diatribes de um amigo fraterno, uma espécie de
alter ego, de grilo falante, que não se conformava
com as minhas invectivas ao ex-governador Cristovam Buarque e,
posteriormente, ao presidente Lula e à cúpula do PT. Com a
agravante de poupar o governador Joaquim Roriz – numa evidente
demonstração de revoltante parcialismo, segundo sua óptica.
Aldous Huxley (As
Portas da Percepção) já comentava que o ser humano,
em virtude das suas restrições neurológicas, sócio-culturais e
experiências individuais, freqüentemente acredita que o seu
modelo de realidade é a própria realidade externa e que
os seus conceitos são fatos. Em outras palavras, se eu afirmo
que isto é uma cadeira, que estou sentindo calor ou que meu cão
está latindo, estou lidando com fatos, o que não
provocará discussões. Agora, se eu afirmo que o meu cão latiu
por que Marte encontra-se ascendente na casa de Saturno, a
história é outra: trata-se de uma crença. Em suma, fatos
são neutros; discutimos crenças. Para que não confundamos fatos
com nossas crenças, recorramos à história dos fatos do parágrafo
anterior.
Em 1995, os governos do
DF e de outros estados foram condenados em última instância a
pagar dívidas trabalhistas, salários atrasados, precatórios
alimentares. O então governador do DF, Cristovam Buarque –
em quem votei – não só se recusou a cumprir uma decisão judicial
transitada em julgado, como afirmou à mídia “...que
preferia ser preso a pagar aqueles débitos...”. Qual é o nome
que se dá a quem afronta uma decisão da Justiça? Rebelde?
Indisciplinado? Ou inadimplente, eufemismo de caloteiro? A
partir daí, publiquei em diversos veículos o meu protesto,
incluindo naqueles epítetos a então deputada distrital Maria
José Maninha, uma das suas cúmplices, e que traiu a confiança
nela depositada por inúmeros eleitores. Coerente, não?
Na campanha ao governo
do DF, em 1998, Joaquim Roriz afirmou publicamente que o seu
primeiro compromisso de campanha seria o de saldar os referidos
precatórios (curioso e trágico país o nosso, em que os
candidatos prometem cumprir a lei a que são obrigados, como se
fosse uma benesse...). Mais uma vez, a história se repetiu.
Eleito, o governador perpetrou outro estelionato eleitoral,
desta vez com o beneplácito do Supremo Tribunal Federal, que de
há muito se transmutou em defensor dos interesses imediatos dos
Executivos. Continuei a publicar minhas catilinárias.
Congruente, não é mesmo?
Comovente a campanha
eleitoral de 89 (Lula lá...Sem medo de ser feliz...),
levando-nos – Maria José e eu – às lagrimas pela figura do
candidato, metáfora de merecimento, seriedade e compromisso com
tão estuprado país, derrotado pelo conluio repelente dos donos
do dinheiro, do poder e dos meios de comunicação, à frente como
sempre a sombra do Dr. Roberto.
A eleição de Lula
à Presidência da República foi um dos mais notáveis fatos da
história do Brasil, representando verdadeira apoteose na sua
simbologia. Um operário sem títulos universitários formais, que
conseguiu derrotar as forças políticas e econômicas que desde
sempre exploraram, saquearam e venderam o País a preço vil. Mais
que tudo: representou a esperança que venceu o medo da mudança
ética. Valeu, para nós brasileiros, vivenciarmos tantas
frustrações, sofrimentos e angústias. Sua vitória consagradora e
comovente, fruto dos nossos votos, a todos nos redimiu.
Já na transição – de
maneira envergonhada – e após a posse – de forma escancarada (royalties
para Elio Gaspari) – logo, logo o presidente Luiz Inácio da
Silva e seus acólitos aliaram-se justamente àquelas forças
obscurantistas que historicamente tanto diziam combater,
esquecendo-se, sem qualquer pejo, dos companheiros de tantos anos e
dos discursos de ontem. Somente na sua cabeça e nas de Dirceus,
Genoínos, Mercadantes, Paloffis, Joões Paulos e outros pode
prevalecer a convicção de que acreditamos – nós, os mentecaptos
– que vieram para mudar este país. Que o digam os
servidores públicos ativos, aposentados e pensionistas, vítimas
de uma covarde reforma da previdência. Quantos votariam em Luis
Inácio sabendo o que não sabiam?
Covardia, Genoíno,
não é delatar companheiros da “guerrilha”: as torturas físicas e
as execráveis pressões psicológicas transcendem e subvertem
quaisquer resquícios de heroísmo. Covardia, José Dirceu, não é
mudar rosto e identidade para não ser capturado pela ditadura
militar. Covardia, presidente Luiz Inácio da Silva, não é ter
suado, tremido e torcido as mãos no último debate da TV, ante
as ameaças de chantagem do candidato Fernando Collor. Covardia é
a destruição dos nossos sonhos. Covardia é transformar
princípios em “bazófias de campanha”. Covardia, companheiros, é
transformarem-se em levógiros Robin Hoods.
Como pode
facilmente perceber, leitor atento, todos os personagens citados
são iguais e são diferentes.
Joaquim Roriz, desde que descoberto
por Sarney, é freqüentador assíduo das páginas policiais e de
escândalos. Se eu não respeitasse a liturgia do cargo, diria que
é caloteiro, mas como a respeito, afirmo que seja, digamos,
inadimplente.Tem um vasto prontuário de ações por racismo,
crimes eleitorais, incitação à violência, grilagens de terras e
estelionatos eleitorais, além de criar milhares de impostos
fraudulentos, sob a forma de taxas (de pânico e prevenção de
incêndios, de varandas, de lixo, de iluminação pública etc).
Tudo isto, à socapa e à sorrelfa, com a abjeta e, talvez - quem
sabe? - lucrativa conivência da Câmara Legislativa.
Os companheiros
Cristovam Buarque e Maria José Maninha também mentiram,
praticaram estelionato eleitoral e desobedeceram decisões
judiciais.
Já disse o que tinha a dizer sobre o
Presidente Luiz Inácio e a corte do PT.
Ah! Quase ia me
esquecendo do título em epígrafe. É uma metáfora, claro. Enquanto Roriz
sempre me pareceu um copo de geléia, facilmente descartável e
substituível quando quebrado, Lula representava uma taça do mais
fino cristal. Daquelas que, como a confiança, uma vez
trincadas...
Publicado:
25.8.2003
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