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AO MIRANTE NELSON |
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Nelson Marins |
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A institucionalização do calote ou a saga dos precatórios |
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Num país democrático e civilizado isto seria absolutamente impensável. Não há qualquer hipótese de haver salários atrasados. Se, por uma aberração, ocorresse este absurdo, os responsáveis seriam imediatamente demitidos e severamente punidos. O escândalo seria amplamente divulgado, com a execração pública dos ladrões, caloteiros, estelionatários, corruptos e criminosos. Estes são os nomes que se dão no primeiro mundo a autores de tal vilania, àqueles que se apropriam de salários alheios.
No Brasil, ditadura feudal travestida de democracia, as leis são feitas pelos donos do poder para que estes e seus condôminos possam burlá-las. Há um conluio explícito dos três Poderes e da mídia cooptada para que se mantenham inimputáveis, independentemente dos seus crimes, mentiras, hipocrisia e cinismo. É uma ação entre amigos. Ao contrário do que acontece em países sérios, em que as altas autoridades são servidoras do povo, neste País infeliz elas não nos representam: servem-se de nós, os súditos.
Numa ousadia e despudor que faltaram até mesmo ao regime de exceção, extorquem-nos impostos e taxas escorchantes. Quando nossos credores esmagam-nos com exíguos prazos, nos cobram juros pornográficos, bloqueiam nossas contas e nosso direito de ir e vir. Se nossos devedores esfregam-nos na cara a leniência das leis, então mais elásticas do que os mais complacentes hímens. Violentam a Constituição, sodomizam o Estado de Direito, estupram a Justiça com a certeza da impunidade dos que pairam acima do bem e do mal.
E Cristóvão é um homem honrado. E Roriz é um homem honrado. Como homens honrados são Jobim, Renan, João Paulo, Aldo e outros tantos varões de Plutarco, como outros governantes – digamos – supostamente inadimplentes e seus defensores.
E nos enfiam goela abaixo viadutos, pontes, metrôs, trens-bala, grilagens, escândalos e recursos não contabilizados.
Tenho vergonha, revolta e nojo de ser brasileiro. Pior ainda: por viver em Brasília, sinto o asco de cruzar involuntária e freqüentemente com esta cleptocracia (apud Elio Gaspari) desvairada.
De Gaulle tinha razão.
* Nelson Marins é x-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e membro da Comissão do Precatório dos Médicos.
Escrito em 13.10.2005 Publicado: 14.10.2005
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