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AO MIRANTE NELSON |
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Nelson Marins |
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Os Homens da Capa Preta |
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Foto xenïa antunes
Por vezes a ignorância é a mãe de todos os medos; às vezes a consciência também é.
1o. ato
Um dos meus maiores pavores da infância era de ter lepra. Durante muitos anos me examinava, procurando manchas e outros sinais da doença no meu corpo. A coisa era tão preocupante que ainda hoje – são passados mais de 60 anos – tenho gravada na minha mente uma associação esdrúxula: morféia ou metamorfose. No meu cérebro infantil dei um salto mental, confundindo o processo com a enfermidade, eis que o doente sofria uma deformação, devida aos lepromas e às mutilações (por perda da sensibilidade dolorosa) espalhados pela face e pelo resto do corpo.
Na época os hansenianos eram confinados na Colônia de Curupaiti, no Rio, para tratamento dos sintomas – a doença era incurável. De lá não podiam sair para não contaminar pessoas sadias.
O colégio onde eu fazia o curso primário, à tarde, ficava a um ou dois quilômetros de casa. Por isso, eu ia e voltava a pé quase sempre acompanhado por mamãe ou pela babá, raramente sozinho.
Um dia surgiram notícias no jornal de que alguns internos fugiram do leprosário, usando capas pretas, e que mordiam as pessoas para transmitir a doença (como os vampiros), pois acreditavam que assim ficariam curados. Aterrorizante!
Na saída das aulas, acompanhado ou não pela babá, eu disparava em pânico numa corrida alucinante até onde me permitiam as minhas pequenas pernas, com a impressão – impressão não, certeza – de que o homem da capa preta estava nos meus calcanhares e iria me morder.
Há bastante tempo sabemos que a enfermidade tem cura, o contágio se faz por convivência íntima e prolongada e que o tratamento se dá em ambulatórios, sem a necessidade cruel de afastar o enfermo do seu meio. Até mesmo o estigma do nome da doença foi substituído – humanamente – pelo do seu descobridor.
Peço perdão, portanto, de público aos homens da capa preta, aos que tiveram ou têm hanseníase, aos seus parentes e amigos pelo meu preconceito pretérito. Peço perdão por não tê-lo feito há mais tempo. Peço perdão pela minha ignorância. Eu não sabia.
2o. ato
Cansado, revoltado, enojado – com freqüência tapando o nariz –, mas não desesperançado, continuo atentamente acompanhando o noticiário político e as atitudes dos chamados homens públicos brasileiros. Escândalos, crises, CPIs, demonstrações explícitas de cinismo, mentiras descaradas, pizzas presentes e futuras, amnésias seletivas, farsas, acintes, provocações, sofismas, impunidades, furtos, roubos, crimes. Interminável o cardápio de notícias “fúnebres” veiculado por nossos jornais, revistas e outros meios de comunicação.
Ofendem-me e ao povo brasileiro, por exemplo, a arrogância e os comportamentos do ministro Nelson Jobim. Imbatível no uso de sofismas, adepto da novilíngua (cujas palavras significam o seu contrário) do “1984” de George Orwell, e discípulo aplicado de Humpty Dumpty nas nominalizações e saladas de palavras. Desde quando nomeado ministro por FHC, recebeu a alcunha de líder do Governo no STF. Agora também passou a apresentar a síndrome do general Góes Monteiro. Ou seja, a qualquer crítica que se lhe façam, veste a toga, mistifica e deblatera como se houvera alguém ofendido o Supremo. Seria cômodo – e cômico – se outra coisa não fosse.
Ofendem-me e ao povo brasileiro as decisões e os votos do ministro Nelson Jobim, sistematicamente a favor do Governo – qualquer governo. São miríades de exemplos, como os da execrável extorsão dos pensionistas e aposentados na reforma da Previdência. Também, quando, juntamente com Sepúlveda Pertence, formou a tropa de choque na defesa de José Dirceu, interrompendo com seus comentários impertinentes, agressivos e sarcásticos os votos contrários de seus pares. Pela sua soberba, na mesma sessão, ao se referir aos “jornalistas juristas e juristas jornalistas” quando citou Nelson Rodrigues: “Os idiotas perderam a modéstia” (nisto, também concordo com o saudoso xará).
Ofende-me e ao povo brasileiro a concessão da liminar em favor do amigo que pagou as contas do rei, pois aberra a quem não tenha o sistema nervoso terminado no tronco encefálico, a conclusão lógica de que quem não deve não teme. E o seu voto, e os dos seus pares, contra a intervenção federal nos governos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal pelo calote dos precatórios alimentícios dos médicos – com a honrosa exceção de Marco Aurélio Mello – previamente deferidos pelo próprio STF? Diga-se a propósito, dos malabarismos e prestidigitações verbais das excelências de notável saber jurídico e reputação ilibada para justificar o calote institucional. Leitores d’ “O lobo e o cordeiro”, de La Fontaine.
Ofende-me e ao povo brasileiro o fato do ministro-presidente ter sistematicamente engavetado autos de processos, com seus pedidos de vistas, durante dois a três anos, para evitar possíveis derrotas do governo (apud Dalmo Dallari), num flagrante desrespeito à Constituição Federal – a qual teoricamente lhe compete guardar.
Ofende-me e ao povo brasileiro a confissão tardia (quinze anos depois do fato) do atual presidente do STF e ex-deputado federal constituinte, sobre o enxerto de duas ou três emendas não votadas pelo plenário, e mesmo assim incluídas no texto da própria Constituição de 1988, entre elas a referente ao uso das medidas provisórias.
Ofendem-me e aos brasileiros a incongruência marota, a prepotência, o corporativismo, as mistificações do ministro Jobim – e de muitos dos seus pares no Supremo e em outros Tribunais Superiores – ao se considerarem acima da lei, de afirmarem que não admitirão “patrulhamentos” aos seus Tribunais, como se imunes fossem à crítica da sociedade. Já escrevi nesta “A Confraria” que as instituições são abstrações e, portanto, eticamente neutras. O que não se confunde com a ética ou a sua falta por parte dos seus bípedes integrantes. Mesmo e principalmente, os que compõem a sua cúpula.
Hoje, ao abrir os jornais, vejo na primeira página fotos de homens da capa preta na abertura dos trabalhos judiciários. No momento experimentei uma sensação desagradável indefinida, ao mesmo tempo em que num aparente surrealismo lembrei-me de uma entrevista de Bill Clinton. O repórter lhe perguntara o que o levara a fazer o que fizera com Mônica Levinsky. O ex-presidente respondeu de bate-pronto: “Porque eu sabia que podia”.
Voltei a olhar as fotos dos homens da capa preta. Num átimo tudo se esclareceu. O meu sentimento indefinido era o medo. Porque, conscientemente, eu sei que “eles” sabem que podem. E esses eu sei que não têm cura.
Escrito em 2.2.2006 Publicado: 4.2.2006
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