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AO MIRANTE NELSON |
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Nelson Marins |
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A CLOACA DA MÃE JOANA |
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ou APOLOGIA DA IMPUNIDADE Foto xenïa antunes
(...) “... Eu vim para enterrar César, não para elogiá-lo (...) e Brutus é um homem honrado (...) Pois os homens perderam o raciocínio! (...)Por aqui passou o punhal do bem-amado Brutus (...) Proclamai-o pelas ruas: César está morto! ”. Julio César, cena II, Terceiro Ato - William Shakespeare. O discurso de Marco Antonio no Senado romano se faz presente, quatrocentos anos depois da morte do bardo de Stratford-upon-Avon, na indignação do povo brasileiro frente ao ultrajante julgamento dos beneficiários do valerioduto. Eis o espetáculo do crescimento, do crescimento do desrespeito às leis que “eles” mesmos criaram; da desmoralização da Comissão de Ética, da Constituição e do regimento interno da Casa; o crescimento do desrespeito ao povo brasileiro, ao pudor; o crescimento do corporativismo, da infâmia, da boçalidade e do sofisma. Que canastrões! Esses são adjetivos generosos, gentis e econômicos, pois decliná-los todos seria tarefa impossível, mesmo para acolhê-los numa Enciclopédia Britânica, mesmo sem resvalar nos turpilóquios. Essa a pantomima encenada no plenário da Câmara dos Deputados por bufões grotescos. Farsa mambembe, ostentada de modo canhestro e sórdido pelos inquilinos do basfond. Pelos personagens mefíticos “pescados nos esgotos” mais imundos, como diria Nelson Rodrigues. Alienante e alienada a autodefesa do deputado Roberto Brant. Inteligente, culto, bem-articulado, fluente no manuseio das palavras, refugiou-se em sua-louvação no olimpo da retórica, evitando a todo o custo os ínvios caminhos da planície. Acoitou-se no discurso fácil das generalizações, omissões e distorções, nas “saladas de palavras”, discípulo fiel, adjunto aprovado cum lauda na cátedra do Professor Humpty Dumpty. Sempre veemente, (incorporando a ira dos justos, numa cópia desbotada de Emile Zola, no “J’accuse”), pinçamos algumas das suas muitas frases de efeito – não necessariamente em ordem cronológica, não necessariamente de forma literal: “Não aceito condenação sem julgamento”, “O Congresso (o grifo é meu) não pode se curvar à opinião pública”, “Devemos respeito ao povo, e não à opinião pública”, “O verdadeiro julgamento será dado pelas urnas”, “Estamos aqui considerando a hipótese de cassar 18 parlamentares. Nem se uma hecatombe moral tivesse caído sobre nós não se justificaria um desastre dessa dimensão e dessa escala”, “Meus amigos, temos um trabalho importante a executar, leis relevantes para votar” (ao invés de perder tempo com assuntos menores como as CPIS?). Temos que votar a reforma da Previdência. Não tem sentido o Estado gastar 40% do seu orçamento com salários e aposentadorias”. “Não existe nenhum grupo com mais espírito público do que o que encontrei nesta Casa”. Comento agora as frases lapidares. Também não necessariamente em ordem cronológica nem necessariamente de forma literal. Tais comentários, outrossim, se aplicam à tropa de choque governista, eis que emblemático o pronunciamento do corajoso deputado Roberto Brant, nota dez em oratória: Amigos! Romanos, perdão, brasileiros! Patrícios! Mais um portador da síndrome do general Góes Monteiro (cf. O Espetáculo do Crescimento nesta A Confraria). Tediosa e didaticamente repito: o Congresso não pode se curvar porque é uma instituição. Instituições não se curvam porque são abstrações. Porém, os seus integrantes têm de se curvar, sim, frente à opinião pública, frente à opinião do povo brasileiro. Ouçam a voz rouca das ruas – é a voz da indignação, da revolta e do nojo. E a maioria dos trêfegos parlamentares ainda não se deu conta que estão envolvidos até a alma na mais profunda lama da decadência moral? Querem hecatombe maior? Serão nefelibatas, estarão psicologicamente anestesiados ou serão sociopatas delirantes? Difícil admitir que não percebam o que a opinião pública e o povo brasileiro já o fizeram há muito. Que se cassem – não apenas dezoito deputados –, repito, que se cassem todos os que chafurdaram neste lodo pestilento. Ou não sabem os “nobres” parlamentares governistas que não houve (nem haverá) cassações em dimensão e em escala devidas porque a maioria da oposição também tem o prolongamento do cóccix comprometido com fatos ilegais? Escandaliza-se o Cícero mineiro com o fato de o Estado despender 40% do orçamento com salários e aposentadorias, urgindo, pois, a reforma da Previdência. Não se sensibiliza, no entanto, com os R$ 157 bilhões de juros da dívida pagos em 2005 pelo nosso guia (royalties para Elio Gaspari), sem abater um mísero centavo do principal e (...) “sem atenuar as injustiças, a penúria e a desigualdade”, nas lúcidas palavras de Miguel Srougi (Folha de São Paulo, C9, 24-02-06). Para o indômito tribuno das Alterosas, mais uma vez os servidores públicos, os aposentados e os pensionistas são o bode expiatório de todas as mazelas pátrias. Cáspite, “Excelência”! Rezar para que o “professor” Luizinho não fosse cassado?! Pois claro, ele é um homem honrado. Aliás, quão emocionante o ato de amor universal e solidariedade recíproca: cada um rezando pela absolvição do outro. E assim, essa comovente permuta de fraternidade expandiu-se para o plenário, onde quase todos rezavam pela absolvição de todos. Por sinal, estes parlamentares, como James Bond, o agente 007 – em que o duplo zero indica a licença para matar em serviço – também o ostentam. Têm licença para trair em serviço a confiança do povo brasileiro. Não é mesmo, presidente Aldo Rabelo? Ah, o “professor” Luizinho! Quão sinistro, quão patético o “professor” Luizinho, cujo biótipo e atitudes diplomáticas tanto lembram filhotinhos de ceratomorfos rinocerotídeos no cio. Que caras, que bocas. Ora contraindo os masseteres, quando os nada eufemísticos deputados do PSOL o acusavam de roubo, ora fazendo cara de modéstia contrita, de vítima injustiçada e comovida, os olhinhos sagazes brilhando ao ouvir encômios, testemunhos da sua inocência e retidão de caráter, e juras de amor eterno dos seus pares. E o “professor” Luizinho é um homem honrado. Pena que esta última mímica não expressasse os seus verdadeiros sentimentos. Era falsa, era fabricada (cf. Paul Ekman, Robert Ornstein e António Damásio sobre a diferença numérica dos músculos faciais contraídos nas emoções verdadeiras, reflexas, e nas simuladas, conscientemente controladas...). Enquanto os deputados entravam em fila, vestidos e vestidas para matar, a fim de exercer o direito sagrado e corajoso do voto – secreto -, ouvia-se em surdina a trilha sonora do Poderoso Chefão. Hom’essa, deputado! Dizer que nunca viu grupo de maior espírito público do que o dos congressistas?! Talvez tenha razão: também nunca vi um grupo, entre mulheres e homens honrados, com tamanho espírito público corporativista. Ou será que homem público tem a mesma conotação de mulher pública? Do festival de asnices pré, intra e pós-traição extraí as seguintes pérolas da ala dos passistas para trás: “Temos diferenças ideológicas (?!), nunca votei no PT nem pedi favores ao presidente Inácio. Mas o deputado Brant (ou Luizinho. Não importa, são a mesma pessoa) nunca cometeu (permaneça o cacófato) nenhum ato desabonador” – Deputado Mussa Demes (ou qualquer outro. Também não importa, são todos iguais). Do deputado-jurista Jutahy Junior: “Caixa dois é crime eleitoral, punido com multa na Justiça, não com perda de mandato” (Afe!). Do deputado João Caldas, cacique do baixo clero: “... Porteira que passa bezerro passa boiada... a lógica é não cassar mais ninguém porque já se disse que caixa dois não é crime... Como cassar os outros?... Vamos parecer biruta de aeroporto... A reação da sociedade já chegou a um estágio que não adianta mais diferenciar. Tanto faz”. Mussa Demes rides again: “João Paulo, Vadão Gomes e Pedro Henry não serão cassados de geito (deixa com g mesmo, êle merece) nenhum. São inimputáveis (?!), pois não há provas contra eles”. Quo uosque tandem politicus abutere patientia nostra? Remind brioches. Remind Maria Antonieta. Em surdina, Chico Buarque canta Sanatório Geral. Por um princípio de isonomia proclamarei num brado retumbante: queremos Luiz Estevão no Senado, queremos Lalau no Tribunal, queremos Dirceu no apogeu, queremos Marcos Valério no cemitério, queremos Roberto muito perto, cantando de novo no plenário: quem me mandou bancar otário? Cantando Conceição pro nosso guia ou então Ave Maria (Conceição se subiu, ninguém sabe, ninguém viu, foi pra puta que a pariu), queremos Delúbio contente votando no presidente, queremos Getulio, pombas! Fica entendido que o marido de mulher adúltera não é mais o último a saber. Depois dele tem um monte de gente. No quesito destaque, destaque-se a performance do empolgado parlamentar das Alagoas, Givaldo (não se perca pelo nome) Carimbão. Depois de gastar os seus cinco minutos de fama num permanente contencioso com o plural, arrematou, num tresloucado e assaz hilariante ato falho: “por isso voto contra a absolvi... contra a condenação do deputado Roberto Brant” (frouxo de riso). Uma pena, “nobre” deputado Brant, que a opinião pública que o senhor explicitamente despreza, que o povo que “Vossa Excelência” diz que respeita, não pudessem aparteá-lo. Povo e opinião pública é que não aceitam que haja julgamento sem condenação em casos previstos pela lei. E “Vossa Excelência” bem o sabe que as leis não protegem àqueles que as ignoram. Principalmente, “nobre” congressista, àqueles que as fazem. Caixa dois é crime, não importam a quantia sonegada, sua origem, nem sua finalidade. Nem tampouco se os “recursos não contabilizados” são de natureza pública ou privada, se recebidos diretamente ou por interpostas pessoas. E o “nobre” deputado afirma que recebeu uma doação da Usiminas, que a nega, e que ninguém “contabilizou”. Desnecessário, “Excelência”, lembrar o ministro Marcio Thomaz Bastos – de que “caixa dois é coisa de bandidos” (Neste momento começamos a ouvir a música Águas de Março no background, com Tom e Elis cantando em dueto:” ... é a lama, é a lama”). E o deputado Roberto Brant é um homem honrado. E como homem honrado “Vossa Excelência” não se envergonhou de ser aplaudido pela imensa maioria dos seus pares, também mulheres e homens honrados? E como homem honrado, o deputado não se envergonhou em comemorar o arquivamento do seu processo, confraternizando com sua família aos risos e aos prantos? Ora, deputado. Não me venha de Humpty Dumpty ao leito, que eu lhe (ou o ?) recebo com o metamodelo da linguagem. Do exposto tiremos nossas ilações: os pequenos Davis – Babá, João Fontes, Luciana Genro, Chico Alencar e Orlando Fantazini – não se intimidaram com o gigantismo adverso do plenário e deram nome aos bois: roubo é roubo (e ainda houve um deputado idiota pró-absolvição que citou os Dez Mandamentos), acordão é pizza rodízio e quem rouba, sonega e mente é ladrão, criminoso e mentiroso. Quem matou Toninho do PT, quem matou Celso Daniel, quem matou o garçom que testemunhou o seqüestro, quem matou o agente funerário que reconheceu o corpo “desovado” e chamou a polícia, quem matou um dos seqüestradores, quem matou um policial ligado aos criminosos? O suspeito é o mordomo? A gripe aviária? Vão tergiversar, perguntando quem matou Odete Roitman, Salomão Ayala e Bia Assumpção? Quem ameaçou de morte a família do prefeito covardemente assassinado, obrigando-a a sair do país? Onde estão as respostas? Ou, como dizia o Barão de Itararé, devemos pensar que “De onde não se espera é que não sai nada”? E exigem que se os chamem de Vossa Excelência, de nobre parlamentar Amigos! Romanos! Patrícios! Ave pequeno César (ave Fernando-privatização-das-teles-e-da-reeleição-comprada, ave Inácio Trinta Dinheiros Iscariotes da Silva), morituri te salutant! Ouve-se a Marcha Fúnebre. O pano cai lentamente.
Escrito em 13.3.2006 Publicado: 14.3.2006
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