AO MIRANTE NELSON

             PRESIDENTE BOQUIRROTO   

Página principal

 Nelson Marins

   Todos os artigos  

   

 

   

 

 

A linguagem é uma eterna fonte de mal-entendidos.

                                           (A. de Saint-Exupéry,  O Pequeno Príncipe)

 

Um dos aspectos que mais me fascinaram no Lula sindicalista e três vezes candidato à Presidência da República foi a sua inteligência prática, que lhe permitia expressar seu pensamento sobre os problemas brasileiros e suas soluções com invulgares fluência, competência e congruência. Nem mesmo os tropeços gramaticais ou a pronúncia das fricativas alveolares apoiando nos dentes a ponta da língua chegavam a empanar o brilho dos discursos.

 

Eleito, todavia, o presidente Luiz Inácio da Silva, sofreu surpreendente metamorfose na forma e no conteúdo da sua fala, brindando-nos com as mais preciosas pérolas dos pensamentos sofistas e orwellianos, procurando nos convencer de que o que disse durante toda a sua vida política significa exatamente o seu contrário. Perdida a coerência, conservados o cecear e a  falta de intimidade com o vernáculo, incorporou ao seu comportamento uma atração obsessivo-compulsiva pelo improviso. E assim passou a descartar o protocolo (como se fora um popstar) e o respeito à liturgia do cargo, da mesma forma que descartou e desrespeitou seus aliados e eleitores históricos.

 

O uso público de turpilóquios e pachouchadas no Sindicato dos Metalúrgicos, as caras e bocas que acompanham os “a gente” e “este país”, repetidos ad nauseam, as declarações políticas e econômicas sob a forma de indigentes metáforas futebolísticas e gastronômicas a que se devem? Deslumbramento com o Poder, ao qual se identificou, desconsiderando o fato dele ser tão somente um agente? Surto messiânico? Rejeição às suas origens, às suas raízes?

 

E como se não bastasse a infame reforma da previdência – com o estupro da Constituição, com a violentação da Justiça, com a sodomização do Estado de Direito – perpetrada pelo Poder (?!) Legislativo, o recuo do recuo do recuo, com a exclusão dos valorosos parlamentares, dos ilustres ministros dos Tribunais Superiores e dos briosos militares, restando como sempre à rafaméia dos servidores públicos ativos, aposentados e pensionistas, o pagamento da conta. O que lembra a história da aranha que enquanto tentava convencer o mosquito e a mosca de que quem fosse aprisionado em sua teia seria devorado, sem exceções, teve a sua armadilha destruída por um gavião em pleno vôo. Ante a perplexidade dos infelizes dípteros, respondeu o aracnídeo com amarelo sorriso: “eu não gosto de carne de gavião”...

 

Além de queda, coice. Com insuspeitados autoritarismo e arrogância, dedica o presidente Luiz Inácio da Silva aos que discordam das suas novas idéias, epítetos tais como radicais, apressadinhos que comem cru e outras baboseiras do mesmo jaez. E pensar que já fomos neobobos e vagabundos.

 

Uma última sugestão ao presidente Luiz Inácio da Silva. Direcione a sua verborragia presente para si mesmo, para os seus mais recentes amigos de infância – os governadores, incluindo o do DF, os novos parlamentares aliados – para um mais nobre propósito. Convença-se e convença-os a pagar o que nos devem, os precatórios alimentares. Isto também é válido para os ministros do Supremo Tribunal Federal. Foi aquela Corte que se pronunciou favoravelmente ao pagamento dos créditos alimentícios há quase dez anos. E que hoje, através de artifícios sofistas, refutam decisões transitadas em julgado. Não fica bem às ilustres autoridades nem à Vossa Excelência a pecha de institucionalizarem o calote.

 

Termino com uma frase que escrevi algures e num contexto semelhante para a deputada Maria José Maninha, que hoje sofre na própria carne as traições e incongruências do governo e do partido que ajudou a fundar e a eleger.

 

Embora pouco ou nada importe ao senhor presidente Luiz Inácio da Silva, gostávamos muito dele e por ele tínhamos o mais profundo respeito quando era apenas Lula.

 

Publicado: 25.8.2003

 

 

próxima: Chega, basta, pára de blá-blá-blá!

anterior: Taça de Cristal

 

 Índice do autor

      Página principal        

 


© copyright 2003-2005  A Confraria Nelson Marins  © Webdesigner xenïa antunes

© Todos os textos aqui publicados são de propriedade e responsabilidade de seus autores.

Reprodução usada na composição da logomarca:  "De Kunstgalerij van Jan",  Adrien de Lelie (c.1794/95)