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A linguagem é uma eterna fonte de mal-entendidos.
(A. de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe)
Um dos aspectos que mais me fascinaram no Lula sindicalista e
três vezes candidato à Presidência da República foi a sua
inteligência prática, que lhe permitia expressar seu pensamento
sobre os problemas brasileiros e suas soluções com invulgares
fluência, competência e congruência. Nem mesmo os tropeços
gramaticais ou a pronúncia das fricativas alveolares apoiando
nos dentes a ponta da língua chegavam a empanar o brilho dos
discursos.
Eleito, todavia, o presidente Luiz Inácio da Silva, sofreu
surpreendente metamorfose na forma e no conteúdo da sua fala,
brindando-nos com as mais preciosas pérolas dos pensamentos
sofistas e orwellianos, procurando nos convencer de que o
que disse durante toda a sua vida política significa
exatamente o seu contrário. Perdida a coerência, conservados o
cecear e a falta de intimidade com o vernáculo, incorporou ao
seu comportamento uma atração obsessivo-compulsiva pelo
improviso. E assim passou a descartar o protocolo (como se fora
um popstar) e o respeito à liturgia do cargo, da mesma
forma que descartou e desrespeitou seus aliados e eleitores
históricos.
O uso público de turpilóquios e pachouchadas no Sindicato dos
Metalúrgicos, as caras e bocas que acompanham os “a gente” e
“este país”, repetidos ad nauseam, as declarações
políticas e econômicas sob a forma de indigentes metáforas
futebolísticas e gastronômicas a que se devem? Deslumbramento
com o Poder, ao qual se identificou, desconsiderando o fato dele
ser tão somente um agente? Surto messiânico? Rejeição às suas
origens, às suas raízes?
E como se não bastasse a infame reforma da previdência – com
o estupro da Constituição, com a violentação da Justiça, com a
sodomização do Estado de Direito – perpetrada pelo Poder (?!)
Legislativo, o recuo do recuo do recuo, com a exclusão dos
valorosos parlamentares, dos ilustres ministros dos Tribunais
Superiores e dos briosos militares, restando como sempre à
rafaméia dos servidores públicos ativos, aposentados e
pensionistas, o pagamento da conta. O que lembra a história da
aranha que enquanto tentava convencer o mosquito e a mosca de
que quem fosse aprisionado em sua teia seria devorado, sem
exceções, teve a sua armadilha destruída por um gavião em pleno
vôo. Ante a perplexidade dos infelizes dípteros, respondeu o
aracnídeo com amarelo sorriso: “eu não gosto de carne de
gavião”...
Além de queda, coice. Com insuspeitados autoritarismo e
arrogância, dedica o presidente Luiz Inácio da Silva aos que
discordam das suas novas idéias, epítetos tais como radicais,
apressadinhos que comem cru e outras baboseiras do mesmo
jaez. E pensar que já fomos neobobos e vagabundos.
Uma última sugestão ao presidente Luiz Inácio da Silva.
Direcione a sua verborragia presente para si mesmo, para os seus
mais recentes amigos de infância – os governadores, incluindo o
do DF, os novos parlamentares aliados – para um mais nobre
propósito. Convença-se e convença-os a pagar o que nos devem, os
precatórios alimentares. Isto também é válido para os ministros
do Supremo Tribunal Federal. Foi aquela Corte que se pronunciou
favoravelmente ao pagamento dos créditos alimentícios há quase
dez anos. E que hoje, através de artifícios sofistas, refutam
decisões transitadas em julgado. Não fica bem às ilustres
autoridades nem à Vossa Excelência a pecha de
institucionalizarem o calote.
Termino com uma frase que escrevi algures e num contexto
semelhante para a deputada Maria José Maninha, que hoje sofre na
própria carne as traições e incongruências do governo e do
partido que ajudou a fundar e a eleger.
Embora pouco ou nada importe ao senhor presidente Luiz Inácio
da Silva, gostávamos muito dele e por ele tínhamos o mais
profundo respeito quando era apenas Lula.
Publicado:
25.8.2003
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Chega, basta, pára de
blá-blá-blá!
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