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Para
me livrar desta mesmice, deste tédio, deste blá-blá-blá vazio e
oco, onde as boas notícias estão sempre no futuro ou no
condicional, e as más e péssimas no presente e no passado da tal
"herança maldita", não vou embora para Pasárgada, pois não sou
amigo do rei (não obstante, infelizmente, nele tenha votado).
Como
não estou disposto a voar por quinze horas nem a me submeter à
humilhação de conseguir um visto para pisar em Miami e,
tampouco, a esperar por um vôo direto que só chega no mês
que vem, Aruba que me aguarde para quando novembro vier.
Por
ora, vou para a velha e loura Albion. Alugarei um
elegante Mini Cooper e, easy rider, desfrutarei o
prazer de atravessar ravinas, charnecas e cornualhas, com seus
choupos, olmos e bordos maravilhosos e rododendros em flor. E
sabendo que, ao ligar o rádio, não ouvirei egüinhas
pocotós nem outras músicas (?) imbecis e imbecilizantes, nem
tomarei conhecimento das indigências alvares de gugus,
silvios, faustões, ratinhos e outros apresentadores de
programas amebiano-disentéricos.
Meus
ouvidos também me agradecerão por poupá-los de sotaques
ceceantes, tatibitatis caipiras, messiânicos e provincianos, em
que a arrogância esconde a farsa e a prepotência oculta o
despreparo.
Freqüentarei
meus pubs prediletos – substituindo
transitoriamente meu habitual tinto por geriátricos escoceses –,
onde não serei obrigado a tomar conhecimento do penúltimo
escândalo político- financeiro, da penúltima chacina do PCC ou
do CV, da penúltima felonia do PT em sua pertinaz androfagia da
classe média e na covarde extorsão de aposentados e
pensionistas, esfregando-lhes na cara um ofensivo aumento de 1%
e, com mão de gato, afanando-lhes ponderáveis nacos de
insultuosas aposentadorias e miseráveis pensões, e cinicamente
oferecendo-lhes um estatuto dos idosos numa tentativa primata de
canhestra mea culpa.
Também
estarei a salvo da nauseabunda verborragia compulsiva de
políticos, governantes e economistas e da sempiterna impunidade
de corruptos e corruptores no país onde o crime compensa - e
muito - desde que cometido por marginais de colarinho sujo –
embora branco de origem – e de punhos de rendas, alegria de
soezes meretrizes morais.

Ah, o
prazer de ler no The Time a recusa da esmagadora maioria
do povo inglês aos alimentos transgênicos e a viva consciência
da sua cidadania, apesar dos ubiqüitários Blairs like
e sua terceira via, provavelmente a retal. Passeios em
Hyde Park, almoços e jantares nos recônditos do Soho
e de Piccadilly, visitas à Tate Gallery, ao
British e ao Science Museum, e à National
Gallery, em Trafalgar Square. Sem precisar
cuidar da bolsa, senão a da Citty, em morigeradas
aplicações das esterlinas sob orientação dos meus corretores
que, ao contrário destes tristes trópicos, não é alvo
preferencial da sanha arrecadatória dos agiotas institucionais.
E
assim, meus amigos, convido-me, para preservar minha sanidade
mental, a abrir um parêntese de 30 dias para gozar as delícias e
tomar um banho saboroso de cultura e civilização que, sendo mais
que merecedor, há tanto tempo me devia.
God save the
Queen!
See you later.
Publicado: 6.10.2003
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