AO MIRANTE NELSON

     

BASTA, CHEGA, PÁRA DE BLÁ-BLÁ-BLÁ!

     

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Nelson Marins

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Para me livrar desta mesmice, deste tédio, deste blá-blá-blá vazio e oco, onde as boas notícias estão sempre no futuro ou no condicional, e as más e péssimas no presente e no passado da tal "herança maldita", não vou embora para Pasárgada, pois não sou amigo do rei (não obstante, infelizmente, nele tenha votado).

 

Como não estou disposto a voar por quinze horas nem a me submeter à humilhação de conseguir um visto para pisar em Miami e,  tampouco,  a esperar por um vôo direto que só chega no mês que vem, Aruba que me aguarde para quando  novembro vier.

 

Por ora, vou para a velha e loura Albion. Alugarei um elegante Mini Cooper e, easy rider, desfrutarei o prazer de atravessar  ravinas, charnecas e cornualhas, com seus choupos, olmos e bordos maravilhosos e rododendros em flor. E sabendo que, ao ligar o rádio,  não ouvirei egüinhas pocotós nem outras músicas (?) imbecis e imbecilizantes, nem tomarei conhecimento das indigências alvares de gugus, silvios, faustões, ratinhos e outros apresentadores de programas amebiano-disentéricos.

 

Meus ouvidos também me agradecerão por poupá-los de sotaques ceceantes, tatibitatis caipiras, messiânicos e provincianos, em que a arrogância esconde a farsa e a prepotência oculta o despreparo.

 

Freqüentarei meus pubs prediletos – substituindo transitoriamente meu habitual tinto por geriátricos escoceses –, onde não serei obrigado a tomar conhecimento do penúltimo escândalo político- financeiro, da penúltima chacina do PCC ou do CV, da penúltima felonia do PT em sua pertinaz androfagia da classe média e na covarde extorsão de aposentados e pensionistas, esfregando-lhes na cara um ofensivo aumento de 1% e, com mão de gato, afanando-lhes ponderáveis nacos de insultuosas aposentadorias e miseráveis pensões, e cinicamente oferecendo-lhes um estatuto dos idosos numa tentativa primata de canhestra mea culpa.  

 

Também estarei a salvo da nauseabunda verborragia compulsiva de políticos, governantes e economistas e da sempiterna impunidade de corruptos e corruptores no país onde o crime compensa - e muito - desde que cometido por marginais de colarinho sujo – embora branco de origem – e de punhos de rendas, alegria de soezes meretrizes morais.

 

Ah, o prazer de ler no The Time a recusa da esmagadora maioria do povo inglês aos alimentos transgênicos e a viva consciência da sua cidadania, apesar dos ubiqüitários Blairs like e sua terceira via, provavelmente a retal. Passeios em Hyde Park, almoços e jantares nos recônditos do Soho e de Piccadilly, visitas à Tate Gallery,  ao British e ao Science Museum, e à National Gallery, em  Trafalgar Square. Sem precisar cuidar da bolsa,  senão a da Citty, em morigeradas aplicações das esterlinas sob orientação dos meus corretores que, ao contrário destes tristes trópicos, não é alvo preferencial da sanha arrecadatória dos agiotas institucionais.

 

E assim, meus amigos, convido-me, para preservar minha sanidade mental, a abrir um parêntese de 30 dias para gozar as delícias e tomar um banho saboroso de cultura e civilização que, sendo mais que merecedor, há tanto tempo me devia.

 

God save the Queen! See you later.

 

     

      Publicado: 6.10.2003

 

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