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Política é a arte de mudar alguma
coisa para que nada se modifique
(Tomasi di Lampedusa – Il Gattopardo)
Cena do filme O Leopardo, de
Lucchino Visconti
Durante
o Estado Novo, o general Góes Monteiro inaugurou uma estratégia
oportunista, cínica e covarde. A qualquer crítica que se lhe
faziam sobre seus desmandos, vestia a sua farda e deblaterava
que a honra do Exército brasileiro havia sido atacada. Assim,
confundia intencionalmente pessoa física com pessoa jurídica,
substituía pela instituição a sua patética figura. E isto, lhe
assegurou total impunidade por toda a sua vida, transformando em
réus os seus acusadores.
Pior: fez escola. Até hoje, qualquer
mequetrefe (patife) abrigado pelas asas protetoras dos três
poderes e da chamada grande imprensa usa o mesmo procedimento,
quando criticado pela sua incompetência, omissão, falta de
caráter e por ações ignóbeis. E permanecem inimputáveis, com
raríssimas exceções – “os bois de piranha”.
Assisto, enojado, o conluio da maioria dos
integrantes das instituições já assinaladas no exponencial
espetáculo da vergonha, ou da sua falta.
Cansada e nauseada pelo podre espetáculo da
venda do País a preço vil, iniciada pelo fronteiriço
ex-presidente Collor, e incrementada a níveis nunca dantes
imaginados pelo narcisismo apátrida de FHC, preparava-se a nação
para a grande mudança representada pela iminente eleição de
Lula.
E a montanha pariu um rato! Renegando todo o
seu passado de lutas sociais, fazendo uso escatológico da sua
biografia, o presidente Luis Inácio da Silva e seus acólitos –
Dirceus, Genoínos, Mercadantes, Martas, e outros que gozavam de
merecido anonimato, como os Joãos Paulos e Paloccis –, elegeram
os servidores públicos, inativos e pensionistas como o bode
expiatório da Reforma da Previdência. Os mesmos que nunca lhes
faltaram em apoio e votos. Para regozijo do FMI e da agiotagem
transnacional, ante a qual se acocoraram em abjeta submissão.
Escreveram mais uma página tenebrosa na tenebrosa História do
Brasil. Perpetraram o mais hediondo espetáculo de estelionato
eleitoral dos anais deste estuprado País.
Quo uosque tu, Suplicy? Quo uosque
tu, Paim? Com a indispensável ajuda dos aliados de aluguel,
a maioria dos deputados e senadores do Partido dos Traidores,
igualando-se aos daqueles, prosseguiu no execrável, cínico e
covarde espetáculo do assalto aos servidores públicos,
aposentados e pensionistas, e ao esmagamento da classe média.
Maquiavéis de subúrbio, vilões, afrontaram desavergonhadamente
os princípios da irredutibilidade de salários e dos direitos
adquiridos, cláusulas pétreas da Constituição Federal. E, como
não poderia deixar de ser, os picaretas do Congresso, atendidas
as imposições e ofertas deste governo ditatorial, livraram seus
preciosos retos da famigerada reforma.
Juntando-se ao coro da maioria dos
representantes do Judiciário, os quais se consideram acima de
quaisquer reformas, como os de outras poucas “carreiras de
Estado” – diplomatas, militares, delegados e policiais. Eis os
novos brâmanes e xátrias deste Brasil brasileiro, aos quais nós,
os sudras e párias, devemos prestar vassalagem. Ave, patético e
peripatético pequeno César! Os quatro bravos gladiadores do
autêntico PT te saúdam!
Quando o atual presidente do Supremo Tribunal
Federal admite que anexou uma área pública à sua fazenda, e
declara que esta se encontra à disposição dos seus legítimos
proprietários – como se a devolução o absolvesse do ilícito –,
conclui-se que há algo de podre no espetáculo do
desenvolvimento. Quando o mesmo ministro declara que os
integrantes da casta que representa merecem tratamento
especial, inclusive férias diferenciadas das da rafaméia, há
algo de podre no espetáculo do crescimento. Não se lembra, por
acaso, que anônimos servidores, como os médicos, garantem a sua
saúde e preservam a sua vida? Não se lembra, por acaso, que sem
o auxílio de modestos professores jamais alcançaria a posição
privilegiada que desfruta?
Basta de mistificações, de mentiras e de
sofismas. Por (ir) responsabilidade da maioria dos componentes
dos três poderes e da mídia cooptada, deixaram de nos servir,
como seu maior dever. Servem-se de nós.
Impostos feudais, taxas escorchantes e
similares, sodomização da Constituição Federal proliferam de
forma imoral, de um lado. De outro lado, governadores
caloteiros, como Joaquim Roriz, permanecem impunes, embora
descumpram decisões judiciais transitadas em julgado.
E depois de tudo isto, e depois dos seus
antológicos artigos – "Desabafo" e
O
Triunfo da Razão Cínica – Cesar Benjamim
ainda pede desculpas?
Publicado:
12.12.2003
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