AO MIRANTE NELSON

 

PODRES PODERES OU O ESPETÁCULO DA VERGONHA

 

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     Nelson Marins

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Política é a arte de mudar alguma coisa para que nada se modifique

(Tomasi di Lampedusa – Il Gattopardo)

 

 Cena do filme O Leopardo, de Lucchino Visconti

Durante o Estado Novo, o general Góes Monteiro inaugurou uma estratégia oportunista, cínica e covarde. A qualquer crítica que se lhe faziam sobre seus desmandos, vestia a sua farda e deblaterava que a honra do Exército brasileiro havia sido atacada. Assim, confundia intencionalmente pessoa física com pessoa jurídica, substituía pela instituição a sua patética figura. E isto, lhe assegurou total impunidade por toda a sua vida, transformando em réus os seus acusadores.

 

Pior: fez escola. Até hoje, qualquer mequetrefe (patife) abrigado pelas asas protetoras dos três poderes e da chamada grande imprensa usa o mesmo procedimento, quando criticado pela sua incompetência, omissão, falta de caráter e por ações ignóbeis. E permanecem inimputáveis, com raríssimas exceções – “os bois de piranha”.

 

Assisto, enojado, o conluio da maioria dos integrantes das instituições já assinaladas no exponencial espetáculo da vergonha, ou da sua falta.

 Cansada e nauseada pelo podre espetáculo da venda do País a preço vil, iniciada pelo fronteiriço ex-presidente Collor, e incrementada a níveis nunca dantes imaginados pelo narcisismo apátrida de FHC, preparava-se a nação para a grande mudança representada pela iminente eleição de Lula.

 

E a montanha pariu um rato! Renegando todo o seu passado de lutas sociais, fazendo uso escatológico da sua biografia, o presidente Luis Inácio da Silva e seus acólitos – Dirceus, Genoínos, Mercadantes, Martas, e outros que gozavam de merecido anonimato, como os Joãos Paulos e Paloccis –, elegeram os servidores públicos, inativos e pensionistas como o bode expiatório da Reforma da Previdência. Os mesmos que nunca lhes faltaram em apoio e votos. Para regozijo do FMI e da agiotagem transnacional, ante a qual se acocoraram em abjeta submissão. Escreveram mais uma página tenebrosa na tenebrosa História do Brasil. Perpetraram o mais hediondo espetáculo de estelionato eleitoral dos anais deste estuprado País.

 

Quo uosque tu, Suplicy?  Quo uosque tu, Paim? Com a indispensável ajuda dos aliados de aluguel, a maioria dos deputados e senadores do Partido dos Traidores, igualando-se aos daqueles, prosseguiu no execrável, cínico e covarde espetáculo do assalto aos servidores públicos, aposentados e pensionistas, e ao esmagamento da classe média. Maquiavéis de subúrbio, vilões, afrontaram desavergonhadamente os princípios da irredutibilidade de salários e dos direitos adquiridos, cláusulas pétreas da Constituição Federal. E, como não poderia deixar de ser, os picaretas do Congresso, atendidas as imposições e ofertas deste governo ditatorial, livraram seus preciosos retos da famigerada reforma.

 

Juntando-se ao coro da maioria dos representantes do Judiciário, os quais se consideram acima de quaisquer reformas, como os de outras poucas “carreiras de Estado” – diplomatas, militares, delegados e policiais. Eis os novos brâmanes e xátrias deste Brasil brasileiro, aos quais nós, os sudras e párias, devemos prestar vassalagem. Ave, patético e peripatético pequeno César! Os quatro bravos gladiadores do autêntico PT te saúdam!

 

Quando o atual presidente do Supremo Tribunal Federal admite que anexou uma área pública à sua fazenda, e declara que esta se encontra à disposição dos seus legítimos proprietários – como se a devolução o absolvesse do ilícito –, conclui-se que há algo de podre no espetáculo do desenvolvimento. Quando o mesmo ministro declara que os integrantes da casta que  representa merecem tratamento especial, inclusive férias diferenciadas das da rafaméia, há algo de podre no espetáculo do crescimento. Não se lembra, por acaso, que anônimos servidores, como os médicos, garantem a sua saúde e preservam a sua vida? Não se lembra, por acaso, que sem o auxílio de modestos professores jamais alcançaria a posição privilegiada que desfruta?

 

Basta de mistificações, de mentiras e de sofismas. Por (ir) responsabilidade da maioria dos componentes dos três poderes e da mídia cooptada,  deixaram de nos servir, como seu maior dever. Servem-se de nós.

 

Impostos feudais, taxas escorchantes e similares, sodomização da Constituição Federal proliferam de forma imoral, de um lado. De outro lado, governadores caloteiros, como Joaquim Roriz, permanecem impunes, embora descumpram decisões judiciais transitadas em julgado.

 

E depois de tudo isto, e depois dos seus antológicos artigos – "Desabafoe O Triunfo da Razão Cínica  – Cesar Benjamim ainda pede desculpas?

 

 

 Publicado: 12.12.2003

 

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