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     Nelson Marins

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Depois de uma licença sabático-marítima que me fez sentir saudades dos queridos leitores, volto a esta coluna para comentar duas próximas decisões – uma do Executivo, com a conivência do Legislativo, outra do Judiciário que certamente contribuirão para que o Brasil se torne cada vez mais a cloaca da mãe Joana. Esclareço: este tem sido o objetivo de governantes e de altas autoridades desde a descoberta do País, embora em progressão exponencial a partir dos dois primeiros Fernandos, e que prossegue com a colaboração do governo democrático-popular do companheiro Luiz Inácio da Silva. Deixo a critério do politizado leitor descobrir as razões para tal desideratu: incompetência, messianismo, ingenuidade (!), voracidade pantagruélica, desvios de caráter, vantagens pessoais, estelionatos eleitorais, síndrome do cabo Anselmo? A lista é longa.

 

O suspense do salário mínimo

 

Ridículo o sucessivo adiamento das informações sobre o valor do novo salário mínimo. Segredo de polichinelo, jogo de cartas marcadas, não obstante as caras e bocas, repetições ad nausea dos “a gente” e “este país”, e de indigentes metáforas, o presidente Luiz Inácio da Silva consegue convencer àqueles cujo sistema nervoso termina no bulbo. Haja vista as vaias recentes dos  antigos companheiros (e eleitores) às declarações mofinas, sofísticas e cínicas (Escola Filosófica) do alumbrado presidente, de que “... todo mundo que ganha um salário mínimo adoraria ganhar o que os metalúrgicos ganham para pagar Imposto de Renda” (ver a seção Consta Que).

 

Deveras emocionante as delirantes previsões da rafaméia sobre o iminente édito imperial: R$260 reais? R$270? Chegará aos cem dólares? Vergonha! Foi para isto que tanta gente votou no camaleônico presidente? Que hoje interrompeu a discussão de assunto tão urgente para, quem sabe, almoçar, quem sabe, assistir Brasil x Hungria? Cáspite!

 

Como se não bastasse tão deprimente espetáculo, afirmou ainda o autodenominado pai dos brasileiros, que o insuficiente aumento do mínimo seria compensado pela elevação do salário-família para vinte e cinco reais por filho isto que papai Lula gasta com cada rebento?). Não obstante o atraente invólucro em que veio envolvido a escatológica benessecompensatória”, a marotice não passou despercebida a Jânio de Freitas (Folha de S.Paulo, 27/03). A felonia é que as aposentadorias são reajustadas na mesma proporção do reajuste do salário mínimo...e...aposentado não tem direito a salário-família. Elementar, meu caro Watson.

 

Estultices à parte, as ordens, de há muito, foram dadas pelamatriz”, vale dizer o FMI e seus patrões – os cada vez mais obesos gatos neoliberais daqui e alhures. O reajuste será, como sempre, ínfimo, revoltante e indigno. O resto é pantomima circense, encenada por atores mambembes.

 

Roriz, o imperador de Brasília

 

O governador Roriz será julgado amanhã (quinta-feira, 29 de abril) pela acusação de crime eleitoral. Adivinhe, suspicacíssimo leitor, qual será o veredicto? Será ele condenado, absolvido, condecorado, o julgamento será mais uma vez adiado, sob alegadas tecnicalidades?

 

Inusitada é a trajetória política do governador Joaquim Roriz, desde quando engatinhava no estado de Goiás, ligado ao PT (Partido dos Traidores), desde quando descoberto, em Brasília, pelo senador José Sarney.

 

A partir daí, o governador do DF vem acumulando um vasto prontuário de processos (inclusive criminais), acusado de racismo, incitação à violência, grilagem de terras públicas (o mais famoso grileiro, além de seu amigo é seu sócio), prevaricação, improbidade administrativa, desvio de dinheiro público, obstrução da justiça, desobediência civil, descumprimento de decisões judiciais transitadas em julgado (precatórios de natureza alimentícia), além de crimes de opinião, como calúnia e injúria.

 

Em 2002, o truculento governador declarou em público, alto e em bom som, que qualquer processo contra ele seria rasgado pelos desembargadores e jogado no lixo (sic). E nada lhe aconteceu, deixando a desconfortável impressão de que é inimputável, que paira acima da lei. A mesma lei que é aplicada, dura e prontamente, para que se cumpram os impostos feudais, travestidos em taxas absurdas por ele perpetradas com a suspeitosa cumplicidade da maioria dos deputados distritais. Taxas de iluminação pública, de varandas, de elevadores, a famigeradavaga fácil”, além da indústria da multa, com a distribuição marota de “pardais” e outros sub-reptícios psitacídeos.

 

E como contrapartida o que temos? A favelização da capital da República, o espetáculo deprimente de migrantes vivendo sob viadutos, em invasões de quaisquer terrenos urbanos, esmolando nos sinais de trânsito, o assustador aumento de seqüestros, assaltos, assassinatos. Produtos da sua política demagógica e irresponsável. Onde, a verdadeira solidariedade humana e a preocupação social? Quantos poderiam se beneficiar com o que se gastou com viadutos, com a ponte dos Remédios, e – que Deus nos livre com a ameaça do trem-bala?

 

* E , gentil leitor, o quê nos reservará o amanhã? Haverá espetáculo? De todas as dúvidas resta uma certeza. Os palhaços somos nós.    

     

 Publicado: 28.4.2004

 

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