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Sexta-feira,
happy hour, casa lotada, três amigos que enriqueceram
rápido por meios não ortodoxos, conversam acaloradamente sobre
as gaffes recorrentes do companheiro Presidente, enquanto
chupetilham os seus uisquinhos. Na mesa ao lado, degusto um belo
e encorpado tinto.
- Pegou mal o
boné do MST, hein?
- Pior foi o
biscoitinho na boca, caceta!
- Porra. E as
embaixadas com a bola?
- E ainda dizem
que isto é prova de espontaneidade. Se ainda fosse o boné da
Febraban...
- É preciso
respeitar a liturgia do cargo, porra.
- Concordo.
Vocês não viram na última visita ao Sindicato dos Metalúrgicos?
Como é que um Presidente da República diz em público que os
companheiros do Sindicato ficaram putos com ele? Puta que pariu,
isto é falta de respeito à nação!
- Vulgarizando a
Presidência, isto é que é.
Súbito, ribomba
um silêncio ensurdecedor em todas as mesas, que até então
parlamentavam coloquialmente aos berros, como só brasileiro
emergente sabe fazer com invejável proficiência. O pianista
hesita e desafina. Os três amigos engasgam e tossem.
Adentra ao
recinto, com a potestade de um puro-sangue no cânter, uma dama
de preto com o vestido lustroso, ao corpo costurado, destacando
reentrâncias e proeminências, como se recém tivesse enviuvado.
Poderosa!
Após minutos de
sacro silêncio, reiniciam-se os comentários, canhestros a
princípio:
- Para uma doña
espanhola, só falta a mantilha.
- Será a nova
dançarina de fandango?
- A ectomorfia
está mais pra forró ou lambada.
Discutem os três
amigos os apanágios anátomo-eróticos da jovem senhora, já então
sentada à uma solitária mesa:
- Seios
generosos, que me remetem aos tempos em que eu mamava! Que
saudade!
- Maravilhosos
úberes de vaca holandesa premiada!
- Cintura de
vespa!
- Ancas de égua
parideira!
- Coxas
exuberantes!
- Pernas de
bailarina!
- Tornozelos de
cavalo árabe!
Assim
prosseguem, dissecando tais atributos, na estratégia de menino
que deixa, para o final, comer da deliciosa sobremesa o último
pedaço.
- Que BUNDA!!!
- Isto não é uma
mulher portando uma bunda, é uma bunda portando uma mulher.
- Isto é que os
gregos chamavam de eucalipigia!
- Que gregos,
mermão. Esta veio direto da África, sem sotaque.
- E sem
tradução!
- Manolo! Uma
cerveja!
- O quê?! Vai
parar na quarta dose?
- Caro,
meus claros (a disartria já começa a se manifestar). Uma
homenagem à maior preferência nacional de outra mais modesta.
- Que bunda!
- Que bunda!
- Que bunda!
- Vou arriscar
um papo, diz o da disartria, levantando-se.
- Calma.
- Senta. Vê lá o
que você vai arranjar, porra.
A meio caminho,
o disártrico estaca quando entra um amigo (dos três), que após
beijar a proprietária de tão cobiçado troféu, logo o abraça e o
apresenta:
- Eustachio.
Conhece a minha “senhôra”?
- Na..não. Muito
prazer, minha senhora.
- Prazer.
- ... com
licença. Vou ao banheiro. Prazer, madame. Prazer em revê-lo,
amigo.
E, com as pernas
trêmulas, Eustachio vai e volta, sentando-se calado.
Os amigos, agora
dissertam sobre as diferenças entre as mulheres hodiernas e as
de antanho.
- No nosso tempo
o padrão era assim...
- Nélia Paula,
Renata Fronzi, Mara Rúbia...
- Angelita
Martinez, Elvira Pagã – lembra da primeira vez que ela foi ao
Arpoador, de biquíni dourado? Juntou gente...
- E as
“certinhas” do Lalau?
- É...Eram
mulheres pneumáticas.
- Bem diferentes
das de hoje. São verdadeiros andróginos. Só se sabe que são
mulheres consultando os caracteres sexuais primários.
- Muito hormônio
no frango e na vaca, malhação, plástica pra diminuir a bunda e
aumentar os seios.
- Aculturação
americana.
(A atmosfera
começa a ficar nostálgica, saudosista. Eustachio continua em
silêncio)
- Que que há,
cara? Perdeu a língua?
- Está pálido.
Está sentindo alguma coisa?
E Eustachio,
contraindo o corpo:
- Estou, porra!
INVEJA, porra, INVEJA!!!
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