CRÔNICAS
 

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                        NELSON MARINS

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DESBUNDE

   

 

 

      

 

Sexta-feira, happy hour, casa lotada, três amigos que enriqueceram rápido por meios não ortodoxos, conversam acaloradamente sobre as gaffes recorrentes do companheiro Presidente, enquanto chupetilham os seus uisquinhos. Na mesa ao lado, degusto um belo e encorpado tinto.

 

- Pegou mal o boné do MST, hein?

- Pior foi o biscoitinho na boca, caceta!

- Porra. E as embaixadas com a bola?

- E ainda dizem que isto é prova de espontaneidade. Se ainda fosse o boné da Febraban...

- É preciso respeitar a liturgia do cargo, porra.

- Concordo. Vocês não viram na última visita ao Sindicato dos Metalúrgicos? Como é que um Presidente da República diz em público que os companheiros do Sindicato ficaram putos com ele? Puta que pariu, isto é falta de respeito à nação!

- Vulgarizando a Presidência, isto é que é.

 

Súbito, ribomba um silêncio ensurdecedor em todas as mesas, que até então parlamentavam coloquialmente aos berros, como só brasileiro emergente sabe fazer com invejável proficiência. O pianista hesita e desafina. Os três amigos engasgam e tossem.

 

Adentra ao recinto, com a potestade de um puro-sangue no cânter, uma dama de preto com o vestido lustroso, ao corpo costurado, destacando reentrâncias e proeminências, como se recém tivesse enviuvado. Poderosa!

 

Após minutos de sacro silêncio, reiniciam-se os comentários, canhestros a princípio:

 

- Para uma doña espanhola, só falta a mantilha.

- Será a nova dançarina de fandango?

- A ectomorfia está mais pra forró ou lambada.

 

Discutem os três amigos os apanágios anátomo-eróticos da jovem senhora, já então sentada à uma solitária mesa:

 

- Seios generosos, que me remetem aos tempos em que eu mamava! Que saudade!

- Maravilhosos úberes de vaca holandesa premiada!

- Cintura de vespa!

- Ancas de égua parideira!

- Coxas exuberantes!

- Pernas de bailarina!

- Tornozelos de cavalo árabe!

 

Assim prosseguem, dissecando tais atributos, na estratégia de menino que deixa, para o final, comer da deliciosa sobremesa o último pedaço.

 

- Que BUNDA!!!

- Isto não é uma mulher portando uma bunda, é uma bunda portando uma mulher.

- Isto é que os gregos chamavam de eucalipigia!

- Que gregos, mermão. Esta veio direto da África, sem sotaque.

- E sem tradução!

- Manolo! Uma cerveja!

- O quê?! Vai parar na quarta dose?

- Caro, meus claros (a disartria já começa a se manifestar). Uma homenagem à maior preferência nacional de outra mais modesta.

 

- Que bunda!

- Que bunda!

- Que bunda!

 

- Vou arriscar um papo, diz o da disartria, levantando-se.

- Calma.

- Senta. Vê lá o que você vai arranjar, porra.

 

A meio caminho, o disártrico estaca quando entra um amigo (dos três), que após beijar a proprietária de tão cobiçado troféu, logo o abraça e o apresenta:

 

-  Eustachio. Conhece a minha “senhôra”?

- Na..não. Muito prazer, minha senhora.

- Prazer.

- ... com licença. Vou ao banheiro. Prazer, madame. Prazer em revê-lo, amigo.

 

E, com as pernas trêmulas, Eustachio vai e volta, sentando-se calado.

Os amigos, agora dissertam sobre as diferenças entre as mulheres hodiernas e as de antanho.

 

- No nosso tempo o padrão era assim...

- Nélia Paula, Renata Fronzi, Mara Rúbia...

- Angelita Martinez, Elvira Pagã – lembra da primeira vez que ela foi ao Arpoador, de biquíni dourado? Juntou gente...

- E as “certinhas” do Lalau?

- É...Eram mulheres pneumáticas.

- Bem diferentes das de hoje. São verdadeiros andróginos. Só se sabe que são mulheres consultando os caracteres sexuais primários.

- Muito hormônio no frango e na vaca, malhação, plástica pra diminuir a bunda e aumentar os seios.

- Aculturação americana.

(A atmosfera começa a ficar nostálgica, saudosista. Eustachio continua em silêncio)

- Que que há, cara? Perdeu a língua?

- Está pálido. Está sentindo alguma coisa?

 

E Eustachio, contraindo o corpo:

- Estou, porra!  INVEJA, porra, INVEJA!!!    

 

 

 

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