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No
burburinho do piano-bar, anoto mentalmente conversas e frases
das mais diversas extrações – irreverentes, fesceninas,
inconseqüentes –, que disputam com a música a minha atenção,
enquanto degusto nobre e encorpado tinto.
- E o
casamento da alcaidina, hein?
- Casamento
do século, cara. Viu o porte do noivo?
-
Physique de rôle de galã de cinema mudo.
- E os
antecedentes? Quatro casamentos; este é o quinto!
- Quatro
casamentos e um funeral!? Rarararará.
- Já ganhou
um emprego de vinte mil reais. Só quero ver se vai pegar sub-
teto e reforma da Previdência.
- Não, não
vai. É na iniciativa privada. E, mesmo se não fosse...
- Gostou dos
modelitos? O da nubente era de uma simplicidade, de uma
elegância encantadora.
- É mesmo,
só custou seis mil paus. Vestida de primavera, portando um
senhor chapéu. Parecia a Bela Otero, com um perpétuo
sorriso aos lábios afixado.
- Ou uma
madame da Belle Époque.
- E o
figurino da madrinha?
-
Sensacional! Meia cartola atrevida, combinando com ousado
vestido púrpura. Talvez inspirados nos bombons “Sonhos de
valsa”.
- Agora você
exagerou. Gosto não se discute.
- Nem mau
gosto. Só se discute quando se transforma uma cerimônia privada
num evento público, num verdadeiro happening.
- Discordo.
Tanto foi um episódio privado que se realizou discretamente num
sítio de uma amiga de infância, somente com amigos convidados.
Além disso, as despesas foram bancadas pelo casal.
-
Quatrocentos amigos, um batalhão de fotógrafos, entrevistas e
fotos naquela revista, helicópteros, caminhões de água,
soldados do Exército, policiais. Isto agora se chama discrição?
- Todo
aquele aparato se justificou pela presença do primeiro
padrinho. Você mesmo já alugou um helicóptero mais de uma
vez.
- E também
já viajei de táxis aéreos. Com a diferença que paguei do meu
bolso, não construí helipontos nem divulguei na mídia. A questão
é a promiscuidade entre o público e o privado, da qual o
casamento foi emblemático. Mais grave do que a origem e o
montante do dinheiro foi a ostentação, sem a qual muita gente
não sabe viver. Principalmente, quando praticada pelos
responsáveis do já folclórico Fome Zero.
- Porra,
então você acha que todo o mundo tem que dar satisfações do que
faz com seu próprio dinheiro e com sua própria vida?
- Não, todo
o mundo não. Somente as pessoas sensíveis, que se recusam a
agredir a miséria e a pobreza dos outros, e as responsáveis pelo
dinheiro público. Quanto a surtos de adolescência tardia,
considero-os um direito universal.
- Consta que
a alcaidessa levou parte do banquete para distribuir com os
servidores municipais.
- Brioches...
Publicado em 5.10.2003
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