CRÔNICAS
 

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                        NELSON MARINS

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    O CASAMENTO DA BELA OTERO

   

 

 

      

No burburinho do piano-bar, anoto mentalmente conversas e frases das mais diversas extrações – irreverentes, fesceninas, inconseqüentes –, que disputam com a música a minha atenção, enquanto degusto nobre e encorpado tinto.

- E o casamento da alcaidina, hein?

- Casamento do século, cara. Viu o porte do noivo?

- Physique de rôle de galã de cinema mudo.

- E os antecedentes? Quatro casamentos; este é o quinto!

- Quatro casamentos e um funeral!? Rarararará.

- Já ganhou um emprego de vinte mil reais. Só quero ver se vai pegar sub- teto       e reforma da Previdência.

- Não, não vai. É na iniciativa privada. E, mesmo se não fosse...

- Gostou dos modelitos? O da nubente era de uma simplicidade, de uma elegância encantadora.

- É mesmo, só custou seis mil paus.  Vestida de primavera, portando um senhor chapéu. Parecia a Bela Otero, com um perpétuo sorriso  aos lábios afixado.

- Ou uma madame da Belle Époque.  

- E o figurino da madrinha?

- Sensacional! Meia cartola atrevida, combinando com ousado vestido púrpura. Talvez inspirados nos bombons “Sonhos de valsa”.

- Agora você exagerou. Gosto não se discute.

- Nem mau gosto. Só se discute quando se transforma uma cerimônia privada num evento público, num verdadeiro happening.

- Discordo. Tanto foi um episódio privado que se realizou discretamente num sítio de uma amiga de infância, somente com amigos convidados. Além disso, as despesas foram bancadas pelo casal.

- Quatrocentos amigos, um batalhão de fotógrafos, entrevistas e fotos naquela revista, helicópteros, caminhões de água, soldados do Exército, policiais.  Isto agora se chama discrição?

- Todo aquele aparato se justificou pela presença do primeiro padrinho. Você mesmo já alugou um helicóptero mais de uma vez.

- E também já viajei de táxis aéreos. Com a diferença que paguei do meu bolso, não construí helipontos nem divulguei na mídia. A questão é a promiscuidade entre o público e o privado, da qual o casamento foi emblemático. Mais grave do que a origem e o montante do dinheiro foi a ostentação, sem a qual muita gente não sabe viver. Principalmente, quando praticada pelos responsáveis do já folclórico Fome Zero.

- Porra, então você acha que todo o mundo tem que dar satisfações do que faz com seu próprio dinheiro e com sua própria vida?

- Não, todo o mundo não. Somente as pessoas sensíveis, que se recusam a agredir a miséria e a pobreza dos outros, e as responsáveis pelo dinheiro público. Quanto a surtos de adolescência tardia, considero-os um direito universal.

- Consta que a alcaidessa levou parte do banquete para distribuir com os servidores municipais.

- Brioches...

 

    Publicado em 5.10.2003

 

 

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