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My
dear,

Vôo razoavelmente confortável, o da British, como soem ser os
da primeira classe, algo tedioso. Felizmente, duas horas antes
do pouso, tivemos uma moderada turbulência, o que me deu um
pretexto para simular uma discreta síndrome do pânico. Assim,
uma interessante comissária sentou-se ao meu lado, procurando me
tranqüilizar, segurando minhas mãos até o desligar das turbinas.
Embora um pouco baixa para os meus padrões (1,73m), nos
reencontramos no dia seguinte - dispensando detalhes, como
gentleman que sou.
Com o Mini Cooper azul, teto
creme-claro, dirigi-me mais
uma vez ao Regent Plaza, Piccadilly Circus, estranhando um pouco
a troca de marchas à esquerda,
Mas o que me causa perplexidade até hoje é ver todo mundo
(inclusive eu) andando na contra-mão, sem que haja qualquer
acidente...
O Regent é muito conveniente pela localização, preço e
conforto dos aposentos, além da tradicional cortesia dos há
muito conhecidos serviçais.
“Oh, doctor Marins, we are really glad indeed to see
you again”.
Faz frio (10 a -1 C), mas nada que calças de veludo ou lã,
camisetas e ceroulas térmicas, pullovers de cashemir , meias e
sapatos adequados não consigam neutralizar. Além do sobretudo de
pele de camelo, companheiro velho de guerra, e do novel chapéu
gelô.
Já fiz muito do que me propus – passeios, museus, pubs
e muitos etcéteras – geralmente com a amável companhia de
lady Jollie, uma bela hostess de antanho. Estivemos num
leilão na Sothebys, onde arrematei, por uma pechincha, uma
bengala de cana da índia com castão de prata, para complementar
meu figurino de dândi.
Não quis incomodar a rainha. Apenas assinei o livro de
presenças, desejando-lhe vida longa e saudável. Soube pelo seu
mordomo que aquela comenda recebida pelo Sean Connery, é
exclusiva dos súditos de Sua Majestade, mas não me sinto
preparado para me naturalizar ainda. A propósito, a saia usada
pelo Sean não o é, e sim um saiote escocês (kilt).
John e George não moram mais aqui. Disseram-me Star e Paul,
que agora escrevem no Guardian, que os dois amigos se
mudaram para uma cidadezinha mexicana, chamada Cielito Lindo,
onde executam experiências metafísicas e muito espirituais. Paul
e Star me levaram a um crazy pub, em que os cinzeiros
aspiram a fumaça e há uma torneirinha em cada mesa, que serve
cerca de 200 marcas de cerveja. Eles estão muito interessados na
parceria com A Confraria, que acharam espetacular. Não
decidiram ainda sobre a publicação em inglês, na Internet, num
dos tablóides ou, ainda, no suplemento dominical do próprio
Guardian (menos provável).
Com muitas saudades dos meus netos, da minha filha e de você,
recebam a minha cordial inveja por morarem no Brasil, no bairro
de maior qualidade de vida do mundo, enquanto tenho eu que me
conformar com esta cidade decadente.
Sem mais, beijos
NM
PS: Em breve um inacreditável papo que presenciei num
pub, entre uma altíssima autoridade patrícia e seu amigo,
um inglês que viveu aí muito tempo e que adora o Brasil.
Publicado em 24.10.2003
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