CRÔNICAS
 

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                        NELSON MARINS

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    SOME NEWS FROM LONDON

   

 

 

      My dear,

 

Vôo razoavelmente confortável, o da British, como soem ser os da primeira classe, algo tedioso. Felizmente, duas horas antes do pouso, tivemos uma moderada turbulência, o que me deu um pretexto para simular uma discreta síndrome do pânico. Assim, uma interessante comissária sentou-se ao meu lado, procurando me tranqüilizar, segurando minhas mãos até o desligar das turbinas. Embora um pouco baixa para os meus padrões (1,73m), nos reencontramos no dia seguinte - dispensando detalhes, como gentleman que sou.

 

Com o Mini Cooper azul, teto creme-claro, dirigi-me mais uma vez ao Regent Plaza, Piccadilly Circus, estranhando um pouco a troca de marchas à esquerda,

Mas o que me causa perplexidade até hoje é ver todo mundo (inclusive eu) andando na contra-mão, sem que haja qualquer acidente...

 

O Regent é muito conveniente pela localização, preço e conforto dos aposentos, além da tradicional cortesia dos há muito conhecidos serviçais. Oh, doctor Marins, we are really glad indeed to see you again”.

 

Faz frio (10 a -1 C), mas nada que calças de veludo ou lã, camisetas e ceroulas térmicas, pullovers de cashemir , meias e sapatos adequados não consigam neutralizar. Além do sobretudo de pele de camelo, companheiro velho de guerra, e do novel chapéu gelô.

 

 Já fiz muito do que me propus – passeios, museus, pubs e muitos etcéteras – geralmente com a amável companhia de lady Jollie, uma bela hostess de antanho. Estivemos num leilão na Sothebys, onde arrematei, por uma pechincha,  uma bengala de cana da índia com castão de prata, para complementar meu figurino de dândi.

 

Não quis incomodar a rainha. Apenas assinei o livro de presenças, desejando-lhe vida longa e saudável. Soube pelo seu mordomo que aquela comenda recebida pelo Sean Connery, é exclusiva dos súditos de Sua Majestade, mas não me sinto preparado para me naturalizar ainda. A propósito, a saia usada pelo Sean não o é, e sim um saiote escocês (kilt).

 

John e George não moram mais aqui. Disseram-me Star e Paul, que agora escrevem no Guardian, que os dois amigos se mudaram para uma cidadezinha mexicana, chamada Cielito Lindo, onde executam experiências metafísicas e muito espirituais. Paul e Star me levaram a um crazy pub, em que os cinzeiros aspiram a fumaça e há uma torneirinha em cada mesa, que serve cerca de 200 marcas de cerveja. Eles estão muito interessados na parceria com A Confraria, que acharam espetacular. Não decidiram ainda sobre a publicação em inglês, na Internet, num dos tablóides ou, ainda, no suplemento dominical do próprio Guardian (menos provável).

 

Com muitas saudades dos meus netos, da minha filha e de você, recebam a minha cordial inveja por morarem no Brasil, no bairro de maior qualidade de vida do mundo, enquanto tenho eu que me conformar com esta cidade decadente.

Sem mais, beijos

NM

 

PS: Em breve um inacreditável papo que presenciei num pub, entre uma altíssima autoridade patrícia e seu amigo, um inglês que viveu aí muito tempo e que adora o Brasil.             

 

 

    Publicado em 24.10.2003

 

 

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